Não adianta apenas organizar a empresa para cumprimento da norma se os gestores não mudarem comportamentos
O LONDRINE̅NSE com assessoria
A recente atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) tem levado empresas a correrem contra o tempo para treinar suas equipes e evitar penalidades. No entanto, para o consultor de empresas, palestrante e autor do livro “O que faço agora que virei líder?”, Flávio Moura, a maior preocupação não deveria ser apenas o cumprimento burocrático da norma, mas sim a necessidade urgente de uma mudança real na cultura organizacional e na liderança corporativa.
O que é a NR-1 e o que mudou?
A NR-1 estabelece as disposições gerais e os direitos e deveres relacionados à segurança e saúde no trabalho. Com a atualização, a norma passou a focar mais na prevenção de riscos, na implementação do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), substituindo o antigo Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA).
O Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), por exemplo, que as empresas documentem e implementem ações para controlar os riscos identificados. Esse programa não se limita a riscos físicos, como quedas ou acidentes com máquinas, mas também abrange riscos químicos, biológicos e, com a atualização mais recente, riscos psicossociais. Isso significa a inclusão de riscos psicossociais que trazem um novo olhar sobre o cuidado com os trabalhadores, especialmente em relação à saúde mental.
Segundo o próprio governo federal, os riscos psicossociais estão relacionados à organização do trabalho e às interações interpessoais no ambiente laboral. Eles incluem fatores como metas excessivas, jornadas extensas, ausência de suporte, assédio moral, conflitos interpessoais e falta de autonomia no trabalho. Esses fatores podem causar estresse, ansiedade, depressão e outros problemas de saúde mental nos trabalhadores.
Agora, todas as empresas devem adotar medidas efetivas para identificar, avaliar e mitigar esses riscos à saúde e segurança dos trabalhadores. A nova NR-1 também reforça a responsabilidade da alta gestão na promoção de um ambiente seguro e saudável, tornando a liderança um fator essencial para o cumprimento das diretrizes.
O problema não é a norma, são os gestores
Para Flávio Moura, a exigência de adaptação à NR-1 evidencia um problema que sempre existiu: a postura dos líderes empresariais. “Se os gestores tivessem uma mentalidade voltada ao respeito e à segurança das equipes desde sempre, não seria necessária uma grande reestruturação agora”, afirma. Segundo ele, muitas empresas “passaram a mão na cabeça”, por anos, de líderes que entregavam resultados a qualquer custo, ignorando o impacto negativo no ambiente de trabalho.
Com a nova regulamentação, essa abordagem se torna insustentável. Moura alerta que a NR-1 não é apenas uma obrigação legal, mas um reflexo da necessidade de mudança na forma como as empresas gerenciam pessoas. “Não adianta cumprir a norma no papel e continuar mantendo lideranças tóxicas. O jogo mudou e, agora, as empresas precisam decidir se vão evoluir ou correr o risco de fracassar”, enfatiza.
Quem precisa sair do jogo?
A adaptação à NR-1 exige que as empresas façam perguntas difíceis:
❌ Quem são os líderes que ainda acreditam que pressão extrema e autoritarismo são sinônimos de gestão eficaz?
❌ Quem são os gestores que ignoram ou até compactuam com comportamentos abusivos dentro da equipe?
❌ Quem resiste a mudanças e insiste em modelos ultrapassados de liderança?
De acordo com o consultor, se essas perguntas geram nomes concretos, e não apenas ideias vagas, a empresa tem um problema a resolver. “A norma exige que a empresa mude sua abordagem em relação à segurança e ao bem-estar dos colaboradores. Se a cultura organizacional continuar a permitir abusos, não há treinamento que resolva”, reforça Moura.

A transformação começa na alta gestão
Para garantir que a mudança seja real e efetiva, Moura destaca que não basta apenas oferecer treinamentos e cursos de atualização. A mudança precisa partir da alta liderança e se espalhar por toda a organização.
“Líderes precisam compreender que sua função vai além de cobrar resultados; eles devem construir um ambiente seguro, produtivo e respeitoso. Os gestores devem assumir a responsabilidade de formar equipes saudáveis, sem tolerar práticas destrutivas.E as empresas precisam ter coragem para fazer mudanças estruturais, o que pode significar substituir profissionais que não se adaptam a uma cultura mais ética e transparente”, afirma.
Para Flávio Moura, as empresas que ignorarem essa necessidade de mudança correm o risco de enfrentar sérias consequências, não apenas legais, mas também de desempenho e reputação. “Não é a NR-1 que definirá o futuro das organizações, mas sim as decisões que os gestores tomarão agora. A pergunta que fica é: a empresa está preparada para essa transformação ou continuará apostando em líderes que já deveriam ter sido substituídos?”, questiona.

