Por professor Renato Munhoz
Perceber a Tecnologia como algo fora do campo magnético, virtual, informático ou robótico é um grande desafio. A techné, palavra grega usada para a definição de técnica, de onde deriva a tecnologia, está relacionada a um saber. Em Aristóteles, filósofo grego, a techné é entendida como uma potência da alma, sendo apresentada como a capacidade racional. O ser humano é aquele que é capaz de pensar e, baseado na sua racionalidade, agir. Aliás, esta é a única coisa que nos difere dos animais irracionais. De resto somos da mesma essência. Vivemos para sobreviver e tudo o que fazemos está relacionado a isso.
A técnica é exatamente os instrumentos e as ferramentas que, ao longo do tempo histórico, fomos criando para melhorar nossa sobrevivência. O que é interessante perceber é que, embora a técnica se utilizasse do meio ambiente para suprir muitas das nossas necessidades, ela nunca esteve acima dele. Sempre a ideia do realmente necessário prevalecia. A sobreposição da técnica sobre o ambiente vem com a necessidade, criada pelos seres humanos, de acumular e de perceber nisso a possibilidade de produzir riquezas. Ganhando com isso poder e recursos financeiros.
Resumidamente é sempre isso: a técnica deixa ser arte quando alcança a ideologia financeira e atropela o ambiente, desconsiderando sua mais bela criação que é de pensar para fazer de modo que ninguém perca sua essência, nem natureza nem ser humano.
A técnica como recuperação do prejuízo gerado por seu mal-uso é o que chamamos de tecnologia social. Nascida para melhorar o ambiente mal transformado pelo mal-uso humano. Reparadora de muitas arestas muitas vezes criadas pela própria técnica.
Lá na fonte de Aristóteles, a potência que ele chama de techné é a sabedoria de fazer não apenas para si, mas para o todo, entendendo que o bom uso da racionalidade traz melhores resultados ao coletivo. É um erro pensar o uso da techné apenas para benefício próprio.
Assim sendo proponho duas ações bem oportunas:
- Educação para tecnologia
Educar para saber usar de modo adequado as tecnologias – que vão desde os instrumentos cotidianos relacionados a informática ao enorme número de equipamentos que, como o celular que muitas vezes podem trazer transtornos e de modo geral é mal utilizado – como ferramenta de conhecimento e acesso a informação. É preciso perguntar quais outras utilidades estes equipamentos podem produzir. Na educação para a tecnologia é preciso envolver todas as ferramentas criadas pelo ser humano com a intenção de qualificar sua vida na superfície do globo. Que vão desde a utilização da máquina, mas também das ferramentas que podem ajudá-lo no desenvolvimento humano, possibilitando inclusive uma melhor convivência com seus pares.
- Humanizar a Tecnologia
Muitas tecnologias estão consideradas ultrapassadas. Quando não existiam redes sociais, a troca de informações era feita em volta da mesa. Esta tecnologia é chamada de comensalidade. Desligar a máquina e ligar o humano. Conversa na calçada, outra técnica que possibilitava a informação territorial sem o uso do bate papo virtual. Brincar com os filhos pode substituir o game da internet ou do celular. Escrever bilhetes e cartas e colocar debaixo das portas pode ser uma técnica infalível de recuperar relacionamentos para além dos aplicativos. Cozinhar juntos pode ser um bom pretexto para fugir do delivery. Pintar desenhar, ler livros. E, por incrível que pareça, a impressão que temos que estas tecnologias funcionaram muito bem e podem ser usadas de modo simples sem muitos investimentos financeiros.
Mas para isso tudo funcionar é preciso dar o primeiro passo, estabelecer dentro de si primeiro para depois convencer os demais. Técnica nunca fica ultrapassada, mas se não for transmitida pode ser esquecida. Tecnologia só pode ser o que é se for capaz de ajudar o ser humano a viver melhor e não o inverso.

Professor Renato Munhoz
Teólogo e Historiador. Especialista em Educação Ambiental e Sustentabilidade.
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