Por Clodomiro Bannwart
Cuidava zelosamente da Igreja e do rebanho. Sempre distribuía palavras afáveis e de encorajamento aos fiéis. Naquela cidade pacata de interior, a Igreja era o centro de encontros, de reuniões e de festividades da comunidade. A sociabilidade era ditada pelos sermões proclamados e a conduta regrada pelas inúmeras homilias do velho padre, arquivadas na memória coletiva. A vida era simples. Os dias se repetiam metódicos sob o mesmo enredo. Havia paz, harmonia e alegria.
Curvado pelo peso dos anos, o padre velho foi recolhido ao mosteiro. Em seu lugar chegou o padre novo. Jovem na idade, porém soturno com o peso da tradição. Apegado à dogmas morais, logo instituiu regras impraticáveis a seres humanos de carne e osso. Falava mais da potestade e das artimanhas do tinhoso do que do amor e da doçura de Cristo. Mergulhou em teorias da conspiração. Bebeu na fonte do negacionismo. Pariu inimigos. Armou a comunidade para combater o comunismo. Transformou os fiéis em militantes. Inseriu a todos em um grupo de WhatsApp e ali distribuía doses diárias de suas supostas verdades.
Passados alguns anos, o velho padre retornou para uma missa especial, a celebração do jubileu de fundação daquela Igreja. Ao proclamar o evangelho, cuja passagem retratava a presença de Jesus diante de Pilatos, o padre velho indagou, no sermão, qual a atitude da assembleia diante daquele que defendeu os direitos humanos, os pobres e marginalizados; que mostrou a face da bondade e exerceu o ofício de mestre no sermão da montanha? Em coro uníssono a voz da multidão ergueu-se, com punhos cerrados ao vento, gritando. “Crucifica-o, crucifica-o, crucifica-o”. Outros ainda bradavam “Aqui é Barrabás, padre velho!”
O velho padre morreu no crepúsculo daquela tarde. E com ele, mais uma vez, Jesus foi envolto no sepulcro.
Que o Cristo possa ressuscitar no amanhecer de novos dias e dissipar a escuridão e o peso da morte que ameaça nossa época.

Clodomiro José Bannwart Júnior
Professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina. Coordenador do Curso de Especialização em Filosofia Política e Jurídica da UEL. Membro da Academia de Letras de Londrina.
Foto: Pixabay

