Caio Souza registra as antigas habitações para resgatar memórias da cidade
Telma Elorza
O LONDRINENSE
Estava eu passeando pelo Facebook quando, no grupo Londrina, me deparo com desenhos lindos, a lápis, de casas de madeira da cidade. Isso me chamou a atenção. O artista, Caio Souza, 26 anos, registra as antigas casas de madeira que ainda restam pela cidade. No texto, ele dizia que tinha cerca de 300 desenhos destas casas. Isso me chamou atenção e, lógico, fui conversar com ele.

Nascido e criado em Londrina, formado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Caio me contou que desenha desde criança e começou, justamente, nas paredes de peroba rosa da casa que vivia. E que, com o tempo, nas suas caminhadas pela ruas da cidade em busca de paisagens para desenhar, percebeu a grande beleza das antigas casinhas de madeira. “Elas são ricas em ornamentos, uma gama de detalhes sobre a história e cultura. Eu comecei a desenhar essas casas de peroba rosa, porque, ao representá-las, me lembro da infância, a fase mais feliz da minha vida”, conta. O desenho, segundo ele, proporciona “uma vivência atemporal pela via do sensível, onde me reconecto esses sentimentos felizes. Parece que na vida adulta, as lembranças, as reminiscências da infância são como chamas poéticas que aquecem o coração. E isso me motiva a desenhar todas as casinhas que aparecem em meu caminho”, disse.

Todos seus trabalhos com as casas são habitações reais, que resistiram ao tempo e o avanço da modernidade, mas que, uma hora vão desaparecer. “O trabalho é feito por desenhos de observação no cotidiano dentro do espaço urbano e, portanto, todas são reais, existentes em Londrina e região”, explicou. “Como as casas de peroba rosa estão sendo demolidas e desaparecendo da paisagem urbana, eu desenho para aumentar o tempo de duração delas, proporcionar pervivência. Assim, tiro do efêmero aquilo que merece ser eterno. O meu objetivo é eternizar a história de Londrina, enaltecer a cultura paranaense e, sobretudo, preservar a memória coletiva através da arte contemporânea”, disse.

Para os desenhos, ele usa materiais simples, lápis 2B, lápis de cor e caneta preta sobre Papel Canson de gramatura 150. “Aos meus olhos, o importante é ter talento e talento é a coragem para experimentar”, afirmou. O desenho é sua maior paixão, mas está sempre se reinventando, buscando novas experiências para explorar suas potencialidades em linguagens artísticas diferentes. Por isso, também faz aquarelas, pinturas a óleo e xilogravuras.
Caio já realizou uma mostra individual na Réplica da Primeira Catedral de Londrina no Campus Universitário da UEL, em 2019, chamada “Caminho de Transfiguração: uma relação entre desenhos e o Estado do Paraná”. Ali estavam os desenhos das antigas casinhas de madeira e pinturas abstratas feitas com a nossa terra vermelha. A série de desenhos das casinhas de madeira “Como Se Fosse Ainda Me Lembro Delas” (2017-2022) também já participou de grandes eventos municipais como ExpoLondrina e ExpoJapão.

O artista vende seu trabalho pela internet e eventos culturais. “Também recebo encomendas de Londrina e região. As pessoas entram em contato comigo através das redes sociais (Facebook e Instagram) e me contratam para desenhar”, contou. “Geralmente, as pessoas querem reproduzir uma imagem e, então, me enviam fotografias e eu desenho olhando para elas. Além do desenho das históricas casinhas de madeira, eu também faço retratos realistas, projetos de tatuagens, ilustrações para livros, logos e capas de CD”, disse.
Ele está elaborando um projeto para tentar participar do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) para retratar patrimônios históricos da cidade com a participação ativa do povo londrinense no processo de criação das obras. “Espero que isso aconteça em breve”, contou.
Foto: Casa no Jardim do Sol/Acervo Pessoal

