Por Alessandra Diehl e Rogério Bosso (*)
Com o passar dos dias, nós, humanos que estamos nesta era vivenciando a pandemia da COVID-19, fomos nos adaptando a novas formas de funcionar e de viver, uma vez que fomos inserindo em nossas vidas os novos hábitos de cuidados e convivência sugeridos pelos protocolos sanitários de prevenção ao vírus. Atrelado a isso, felizmente também contamos agora com a vacina para imunização. Assim sendo, à medida que observamos o afrouxamento das regras de distanciamento social, algumas pessoas que já se adaptaram, mesmo com uma certa resistência inicial, ao novo formato de funcionar, estão também vivenciando um processo de sofrimento por terem que retomar as atividades do dia a dia como faziam antes da pandemia. Muitas delas estão sofrendo o impacto da quarentena com o isolamento social prolongado.
O impacto na saúde mental da privação de conviver com outras pessoas, associado muitas vezes ao medo e o “pânico” de se imaginar retornando para as atividades no pós-pandemia tem recebido o nome de Síndrome da Cabana ou Síndrome da Gaiola. Essa síndrome diz respeito a alterações sobretudo do humor e do sono, aliados ao medo irracional que a pessoa pode apresentar de sair de casa para retornar ao meio social após ter vivenciado períodos longos de confinamento semelhantes ao que ocorre em pessoas que são condenadas a cumprir pena em selas de forma solitária ou que viajam ao espaço, por exemplo.
Na verdade, está condição não é considerada de fato uma doença cunhada com este nome pelos manuais diagnósticos atuais vigentes. No entanto, a condição, em alguns aspectos, parece se aproximar do já conhecido transtorno de ajustamento ou de adaptação bem descrito da literatura científica. Embora a Síndrome da Cabana ainda não seja um transtorno descrito pelos manuais diagnósticos de transtornos mentais, ela já tem recebido alguma atenção no meio acadêmico, principalmente em crianças e adolescentes.
Estas parecem ser o maior foco de preocupação atual com relação aos impactos na saúde mental das mesmas pela privação de interação social com o seus pares de forma não on-line. Assim como, profissionais da saúde têm alertado que se esta condição não receber atenção adequada, o quadro tem grandes chances de evoluir para condições mais graves como a síndrome do pânico, depressão, automutilação e até mesmo suicídio, apenas para citar algumas das possibilidades.
Os relatos iniciais sobre essa síndrome são datados nos anos de 1900, uma vez que, dado aos longos períodos de inverno na América do Norte, acabava obrigando os trabalhadores permanecerem por longos períodos isolados em suas cabanas, até que o inverno acabasse e, com ele, sintomas de falta de estimulação, insatisfação, irritabilidade e pouca motivação para qualquer atividade. Porém, o fim do inverno trazia a necessidade de retomada ao trabalho e, com ele, a angústia de voltar a conviver em sociedade.
Atualmente, a síndrome da cabana tem ganhado também uma nova roupagem, ou seja, está de nome novo: “FOGO” (fear of going out) que na língua portuguesa pode ser traduzido como “medo de sair de casa”, associado a presença desproporcional de receio frente as reaberturas da economia após um período de isolamento, conhecido como “quarentena”. O grupo de maior risco para apresentar a síndrome seriam as pessoas com características de personalidade mais introvertidas. Os sinais e sintomas da Síndrome da Cabana incluem: ausência de motivação; desânimo; distúrbio alimentar; ansiedade; oscilações no humor; dificuldade para concentrar-se; perda de memória; frustração e alteração do sono.
Mas qual seria a explicação para esse medo de retornar para as atividades que já faziam parte do cotidiano das pessoas? Uma possível resposta é que, mesmo com as restrições causadas pelo isolamento social nos dias iniciais da pandemia, com o passar do tempo e com o ajustamento das pessoas ao novo formato de vida, este isolamento trouxe uma necessidade de novas adaptações.
Vale lembrar que somos dotados de um cérebro com capacidades plásticas, ou seja, um cérebro programado para se adaptar ao meio que em que vivemos, da mesma forma que é programado tanto para gerar prazer quanto para fugir do desprazer. Por esse motivo, algumas pessoas se adaptaram ao desprazer do isolamento e mesmo que, com sintomas diversos do humor e da motivação, conseguiram se acostumar com ele. Mover-se em direção contrária agora requerer certa energia e tempo, os quais ainda estão em baixa na plasticidade cerebral e comportamental. É necessário agora fazer o caminho inverso!
Como escapar do grupo de risco?
Praticar hábitos diários saudáveis, com a presença de uma rotina estruturada e buscar por técnicas que possam “relaxar a mente” e trazer bem-estar, como a dança, a atividade física, ler um bom livro, ligar para amigos, a meditação, pisar na grama de pés descalços, passear com os pets são apenas algumas das alternativas para tentar escapar do grupo de risco e se livrar da Síndrome da Cabana.
Mas, mesmo assim, se você estiver vivenciando alguma dificuldade e entender que os sintomas estão prejudicando o funcionamento do seu dia a dia, a recomendação é procurar por um profissional especializado em saúde mental para fazer uma avaliação. Na rede pública, existem os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou os ambulatórios de saúde mental e psicologia inseridos dentro das Universidades, ou ainda, na rede privada os consultórios de psiquiatras e psicólogos .
Alessandra Diehl – É psiquiatra em Londrina e atual presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD)
Rogério Bosso – É psicólogo em Campinas e professor da Faculdade Anhanguera de Campinas- Taquaral
Foto: `Pexels

