O famigerado privilégio branco é um tema espinhoso, complexo e passa por questões como gênero, raça e classe. A sociedade brasileira nega a existência do racismo e argumenta que todos somos iguais. Será mesmo?
Por Viviane Alexandrino
Não, não somos todos iguais. Essa é uma das maiores falácias propagadas na sociedade brasileira. Você, realmente, acredita que todos somos iguais? Que todos temos os mesmos direitos garantidos? Todos partimos de lugares iguais para acessar as mesmas oportunidades? Se você respondeu não para pelo menos uma questão, sinto informar que a igualdade para todos no Brasil não é colocada em prática.
Primeiro ponto: a luta pelo combate ao racismo acontece da seguinte maneira. Uma pessoa preta se posiciona, reivindica seus direitos e, normalmente, uma pessoa branca tenta deslegitimar as reivindicações, muitas vezes com apontamentos como “eu também já sofri racismo”, “eu também sofro por ser pobre” ou “eu também luto para conquistar meus espaços”.
Sim, gente, pessoas brancas pobres também precisam buscar espaços, há também uma dificuldade de inserção no mercado de trabalho em razão da classe social. Mas você já sofreu limitações em razão da cor da sua pele?
É preciso deixar claro que racismo é bem diferente de preconceito. O racismo é um conjunto de teorias, práticas e crenças que estabelece uma hierarquia entre as raças, em que uma raça é considerada superior à outra, ou seja, alguém se posiciona como superior e, logo, há outro indivíduo que está sendo inferiorizado. Por sua vez, o preconceito é uma opinião que formamos antecipadamente a respeito de pessoas antes de conhecê-las. Aqui, costuma-se entrar a questão social, pois a superficialidade de pré-conceitos – envolvendo pessoas pobres, por exemplo – podem se tornar perigosos e até violentos, uma vez que estereótipos são estabelecidos, ficam cristalizados e são difundidos. Tomemos por exemplo a divisão da cidade de Londrina em regiões: norte, sul, leste e oeste. Quando você pensa em pessoas abastadas, em qual região elas estão? Quando você fala no Cinco Conjuntos, há a colocação de adjetivos pejorativos? Há piadinhas e risadinhas?
Consegue perceber que não tem como abordarmos o privilégio branco sem antes falarmos de racismo, pois a cor da pele do indivíduo vai dificultar sua inserção no mercado de trabalho, por exemplo?
Quando há o apontamento do privilégio branco, não estou afirmando que a vida dos brancos é perfeita. O que quero que você entenda é que as pessoas negras, sobretudo as mulheres, enfrentam mais possibilidades de negativas sociais só por serem negras.
Se a pessoa branca está desempregada, ela está sendo afetada por uma desigualdade de classe e não de raça. Quando o privilégio branco é apontado, não estou negando seu sofrimento com a situação do desemprego, mas tentando explicar que uma pessoa preta, com a mesma classe social e moradora da mesma região têm mais dificuldade de acessar o mercado de trabalho. Mais uma vez: não é culpa da pessoa branca, mas é o modus operandi da sociedade e que precisa ser questionado.
Não é uma disputa de quem sofre mais e nem desmerecer as conquistas das pessoas brancas, chamando-as de privilegiadas e fazerem-nas se sentirem culpadas. Apontar o privilégio branco é mostrar que o fato de não ter a pele escura já é estar um passo à frente de muitas situações. O privilégio branco é você não precisar se preocupar com algumas situações, tais como: fazer compras e guardar a nota fiscal, pois você sabe que dificilmente será abordado pelo segurança e tratado com truculência.
Além disso, se você não fica preocupado ao passar por uma abordagem policial, com medo de uma conduta violenta e desrespeitosa, sim, você é privilegiado. Essa situação da abordagem policial violenta com pessoas negras está a toda hora na rede social. Pare e dê uma pesquisada. Retratada até mesmo em séries e filmes. Há um episódio em Greys Anatomy, em que a médica Miranda Bailey ensina para seu filho – de sete anos – o que fazer se a polícia o parar na rua. Saber como agir com a polícia é questão de sobrevivência! Infelizmente.
Privilégio tem relação com tudo o que para o seu grupo social é regra e que para outro grupo social é exceção. Aqui, temos questões envolvendo acesso a direitos e oportunidades. Quantos negros médicos você conhece? Quantos negros ocupam posição de chefia em multinacionais? Quantas mulheres negras estão na política? Quando se fala de privilégio não podemos pegar um caso isolado e tentar rebater o que está sendo apontado, como citar personalidades negras como Joaquim Barbosa, Maria Júlia Coutinho, Glória Maria.
Entende que essas figuras são a exceção e não a regra? Que toda vez que um negro conquista um posto de destaque, sua cor de pele é mencionada? “Primeiro negro presidente dos Estados Unidos”, “Primeiro piloto negro sete vezes campeão da Fórmula 1”. Isso é feito, porque tal conquista é uma exceção, porque não temos as mesmas oportunidades de acesso. Isso é privilégio: As pessoas brancas não se preocuparem com exceções e representatividade é porque pessoas brancas sempre foram e são representadas na moda, no cinema, nas artes, na música. Entende? Quando uma pessoa branca precisou se preocupar em ao ter um filho, ter um boneco branco para o filho se sentir representado? Nunca, né, gente? Reconhecer os próprios privilégios costuma ser desagradável. Mas é preciso ser feito. É um debate complexo. E precisamos enfiar o dedo na ferida.
Por fim, vou deixar um vídeo e espero que vocês o assistam. Ele é muito explicativo. Coloca em imagens o que é o privilégio branco. Assista:
Até a próxima. Axé.

Quem é Viviane Alexandrino
Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.
Foto: Pexels


Respostas de 2
Há quem acredite que a cor da pele dita a capacidade intelectual, basta relembrar de Machado de Assis, nosso maior exponente literário para essa afirmação cair por terra.
Entendo. Concordo em algumas de suas colocações. Quanto as que não concordo, repeito.