Por Renato Munhoz
A população urbana mudou drasticamente no Brasil e no mundo. Segundo dados da Organização das Nações Unidas ONU, em 1950 a população urbana era representada por cerca de 30%. Em 2018 esse número saltou para 55% da população mundial e a tendência é de que em 2050 chegue a mais 68% da as pessoas vivendo nas cidades no mundo.
No Brasil a proporção da população urbana, segundo estes mesmos dados, é de que a longo prazo este número se estabilize em cerca de 90% da população brasileira esteja vivendo em áreas urbanizadas.
O que isso de fato representa?
O crescimento populacional no mundo, via de regra, não tem sido acompanhando de um planejamento sistematizado que prepare os espaços para as demandas que podem ser geradas. Isso ainda atrelado a uma cultura que, de maneira geral, não leva em consideração a sustentabilidade do planeta. E mesmo vivendo em espaços comuns, as pessoas são consideradas individualmente, aumentando ainda mais a cultura do individualismo e impossibilitando uma ocupação dos espaços urbanos que considere os lugares ocupados coletivamente. Porque, quando se considera os impactos gerados coletivamente, fazendo com que as pessoas participem dos processos de ocupação, cria-se a possibilidade da distribuição das responsabilidades.
Essa é a base do conceito estabelecido pela ONU, o envolvimento das pessoas que vivem nas cidades em todos os processos que podem impactar diretamente na vida destes habitantes. Várias são as teorias sobre este conceito que tem a ver com o futuro da humanidade.
Aponto três dimensões fundamentais de uma cidade inteligente que tem a ver diretamente com a Sustentabilidade: Participação, Troca de Saberes e Governança Atenta.
Participação: Como já foi dito, a participação é princípio para que o modo de vida na cidade seja compreendido por todos e seja vivenciado efetivamente. Quando os sujeitos que habitam o mesmo lugar, participam da constituição da forma de vida deste, a possibilidade de que as demandas sejam respondidas e atendidas aumentam. Entender o lugar, o espaço onde se vive faz com que as pessoas sejam de certa forma corresponsáveis pelos resultados positivos e entendam os efeitos negativos. A cultura do individualismo destruiu significativamente o desejo de participação e criou um falso espectro de que nada se resolve.
É preciso criar relações dialógicas, onde ouvir e dizer sejam considerados. Quando os sujeitos se enxergam vivendo em um espaço que exerce sobre estas certas responsabilidades, impacta diretamente na vida coletiva. É preciso criar instrumentos de participação. Para que aos poucos vá se criando uma nova cultura participativa, integrada e responsável.

Troca de Saberes: Quando se dialoga, se descobre. Os saberes são constituídos dentro de culturas bem distintas. Cada um de nós somos detentores de informações, concebidas de formas bem específicas, embora muitas vezes nos levem na mesma direção. O que falta muitas vezes é considerar estes saberes individuais na direção da construção de possibilidades coletivas. Quando se considera o saber, nasce a dimensão do respeito. Tantas vezes perdido pela ausência da interculturalidade. O mundo é uma soma. Não pode ser uma divisão.
Aqui nasce um dos principais elementos da “cidade inteligente”. Deixa-se de lado a cultura da competição e passa-se a vivenciar a cooperação. Somos cooperadores uns dos outros, da natureza do planeta. Este valor é fundante e é prática cotidiana na busca sempre da qualidade de vida individual e coletivamente. É isso, os resultados também são individuais. Vivemos melhor na sociedade de trocas. Porque percebemos empaticamente que o que falta em mim é complementado pelo saber do outro. E vice-versa.
Governança Atenta: Um dos princípios deste modelo de governança é participação. Nada é decidido sem considerar a fala dos sujeitos envolvidos nas decisões de governo. A governança atenta é construtora de pontes, não de muros e barreiras. Uma cidade inteligente é integrada. Os espaços estão de certa forma conectados. A natureza é parte do processo de relação entre os sujeitos. As pessoas são convidadas a serem “co-gestoras” dos espaços.
Uma cidade inteligente faz com que as regiões dialoguem, diminuindo drasticamente as chamadas desigualdades regionais. Sendo que o mesmo saneamento que atende uma região com população em melhores condições financeiras, seja o mesmo saneamento das chamadas periferias. Este modelo de gestão faz com que todos os processos necessários para sustentabilidade sejam considerados harmonicamente.
Existem cidades no mundo onde, ao invés de destruírem parques para dar lugar a “limpeza urbana”, estes estão integrados a vida das pessoas. São utilizados para práticas de meditação, esportes ou simplesmente um bom passeio de domingo. Também a recuperação ou a constituição de novas áreas que integrem os habitantes e a natureza tem sido uma tendência mundial. Ciclovias integradas, longas pistas de caminhada, mobilidade urbana, espaços verdes, feiras urbanas, hortas comunitárias, atividades culturais descentralizadas. São exemplos de como a cidade pode ser aprazível para seus habitantes.
Longe de criar uma visão utópica, mas como bom educador, acredito que é necessário criar um sonho, para poder realizar outro sonho. E a carreira de sonhos é o que nos vai movendo rumo a mundo mais sustentável. Eu já disse sustentabilidade não é resposta imediata. É sobretudo processo educativo. Que precisa começar de alguma forma em algum lugar. Aliás, já começou. Ou você não percebeu ainda?
Renato Munhoz

Professor, teólogo historiador. Pós Graduando em Educação Ambiental e Sustentabilidade. Coordenador de Projetos do COPATI (Consórcio para Proteção Ambiental do Rio Tibagi).
Foto: Pexels


Uma resposta
Ótimo artigo
Parabéns ao Professor Renato e também ao Jornal Londrinense por publicar excelente matéria