O dia em que comecei a virar jacaré

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Telma Elorza

O LONDRINENSE

São quase 15 meses de pandemia no Brasil. Cerca de 420 mil mortos por covid-19 em todo país. Só em Londrina, pela última contagem oficial da Prefeitura, 1.300 mortos. Pais, mães, avós, filhos, amigos, conhecidos. Gente famosa ou anônima. Gente que não teve a oportunidade de tomar a vacina. Eu tive sorte. Mesmo com comorbidades – diabetes mellitus e hipertensão arterial – , consegui sobreviver para tomar, na manhã deste sábado (8), a primeira dose da AstraZenega, a vacina de Oxford/Fiocruz. Comecei o processo de virar jacaré.

Sorte, sim. Mesmo me protegendo ao máximo, mantendo o isolamento sozinha em casa – e quase pirando por isso -, mesmo usando máscara quando sou obrigada a sair de casa (buscar meus remédios na UBS ou farmácia popular, que não entregam), usando e abusando do álcool em gel nas mãos, poderia ter topado com uma pessoa assintomática no meio do caminho. Poderia ter contraído a doença sem saber como ou porque. Não contrai. Agradeço a Deus por isso.

Mas que exagero, Telma! Não, não é exagero. Já vi casos de pessoas que contraíram covid por ter contato com um vendedor assintomático; por receber em casa um ente querido que estava contaminado e não sabia. Já vi filhos que foram para baladas contaminarem os pais que não saiam de casa. Já vi casos de pessoas negarem a gravidade da situação, classificando-a como uma “gripezinha”. Não é.

Sinceramente, eu esperava ansiosa essa vacina. Mas, com tantas interferências negativas deste governo genocida, não tinha certeza se chegaria a me vacinar. Se a sorte – ou Deus – continuaria me ajudar. Se poderia ter esperança de sobreviver. Cada espirro de rinite que eu dava era um “será?”. Cada tosse, cada dor que tinha, vinha imediatamente à mente: “putz!” Meu medo era pegar a doença e não sair do hospital viva. Como o caso do homem que fugiu do HU e depois morreu. Uma história triste, porque me vi nele. Me vi nos milhares de mortos. Cada um que o boletim epidemiológico trazia a informação “tinha comorbidades”, eu me via ali, naquela lista. Ter comorbidades é praticamente um atestado de óbito para a covid-19.

Mas na manhã deste sábado, chegou minha vez. A ansiedade quase me matou, antes da aplicação. Tomei a primeira dose na UBS da Vila Casoni. Levou cerca de 10 minutos do início ao fim. Parecia que eu estava num sonho. Valeu cada minuto. Agora eu posso ter a esperança de sobreviver mesmo se pegar a maldita

Volto para tomar a segunda dose em 27 de julho. Mas vou continuar me cuidando até lá. Isolamento continua, continua o uso de máscara e álcool em gel. E, talvez, tudo isso ainda depois dela, embora o isolamento possa ficar um pouco mais relaxado.

Mas a lição maior que tiro é: vamos respeitar ainda mais a ciência, o SUS e os profissionais de saúde. Vamos valorizar tudo isso. Porque nos permite viver.

Foto: Ilka Elorza

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Uma resposta

  1. Que bom que você conseguiu se vacinar mesmo com o governo genocida no ar. Liberdade está ai para isso. O sol nasce para todos.

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