Hoje eu adoraria escrever sobre a parte mais leve da arte, o lúdico, o inspirador, o sonho….Mas, a tristeza não me permite…Perdemos dois grandes artistas em questão de horas: Jajá Belucco e Paulo Gustavo…Como artista e ser humano, não posso simplesmente deixar passar em branco o vazio que eles deixaram para a família, amigos e o mundo das artes!
Jajá (muito bem lembrado pela Telma Elorza) foi tema dessa coluna e foi artista convidado para mostrar um pouquinho do seu trabalho na loja, quando essa estava aberta…Quando fomos pegar as obras, o Jajá mostrou para gente suas plantas e nos deu uma muda de cana caiana. Um dia, passou na loja e me deixou uma vasilha lotada de amoras (eu vi a árvore que tinha no seu quintal e comentei que adorava amora!). Naquele ano que a loja ficou aberta, de vez em quando ele passava para conversar, na maioria das vezes sobre arte e tomava um café com a gente.

Praticamente, em toda minha vida como artista, encontrava o Jajá nos movimentos dos artistas da cidade, nas expôs e tenho uma bolsa jeans muito legal da fase em que ele começou a fazer peças no tecido. E essa ele me deu de presente um dia que passei no calçadão e admirei a bolsa. E assim ele sempre foi conosco! Generoso, um grande artista e o que eu mais admirava nele: o cuidado que ele tinha com sua mãe! (Acredito que ela o recebeu no lugar colorido e belo que os artistas vão!)
E falando em mãe, não tem como não se entristecer com a partida e desencarne de Paulo Gustavo…Nem preciso dizer que adoro “Minha mãe é uma peça” e que assisti todos! (E lógico! Reconhecendo na dona Herminia, um pouco das minhas avós, tias, amigas e minha mãe).

É estranho como falamos nas pessoas que se vão, no passado…mesmo eu, como artista esqueço que artistas permanecem com o que foi mais importante: suas obras! Artistas não morrem… Apenas entram nos seus mundos definitivamente e deixam que a cortina se feche, como um último ato para essa plateia que faz parte da sua vida, nesse momento…
Suas obras, independentes de serem pinturas, desenhos, esculturas, peças de teatro, filmes, músicas, continuam a ressoar nos nossos ouvidos, a surpreender nossos olhos e a encher nossas almas de contentamento e esperança…
Artistas não morrem! São pessoas que se conectam com a luz e as sombras e as desvendam para que todos tenham coragem para enfrentar seus medos, suas inseguranças , suas limitações e aprender a se conhecerem mais! Mas…
Como ainda não conseguimos transcender a matéria, sentimos falta e saudades da presença desses artistas…E tristeza…porque a arte existe em todos nós, em cada pessoa que tem a empatia e a sensibilidade para observar um céu azul de inverno, o pôr do sol… Artistas não morrem…se libertam do que os restringe, o corpo físico que nos impede de voarmos por aí, com a mesma liberdade dos pássaros!
Não pensem que eu não estou com raiva! Com indignação, por mortes que poderiam ter sido evitadas! E não entendo como esse #genocida ainda está no poder e entendo menos ainda as pessoas irresponsáveis que se negam a ver e a ter empatia por todos que poderiam ainda estar aqui!
E mesmo acreditando que as pessoas, assim como os livros, tem seus próprios destinos, como diz no poema de John Donne :…”e por isso, não me pergunte por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti”! Eles dobram por todos nós que ficamos aqui e por todas as famílias que dia após dia estão vivendo um luto, ausências…
A arte nos sustenta…sustenta nosso espirito, alimenta nossa alma, nos conecta com o poder superior…Nunca tivemos tanta necessidade da arte! A cortina do palco da vida fechou para muitos amigos, conhecidos, artistas admiráveis e admirados e, sinceramente, me sinto impotente e com grande peso no coração, cada vez que um colega, um amigo, um artista volta pra casa do pai…Tão cedo… Tem pessoas que sempre irão cedo demais…
Angela Diana

Sou londrinense e me dedico à arte desde 1986 quando pisei pela primeira vez no atelier de Leticia Marquez. Fui co-fundadora da Oficina de Arte, em parceria com Mira Benvenuto e atuo nas áreas de pintura, escultura, desenho e orientação de artes para adolescentes e adultos.
Foto: Obra de Jajá Belluco

