Estreou esta semana, em alguns cinemas do país, a grande estrela do Oscar 2021, Nomadland. Ganhador de vários prêmios nos principais festivais de cinema do mundo, inclusive de seis Oscars, melhor filme, melhor direção, melhor fotografia, melhor atriz Frances McDormand (Fargo – 1996), melhor roteiro adaptado, melhor montagem, o filme é uma espécie de road movie contemporâneo que mostra uma América em ruínas, melancolicamente cortante.
O roteiro é centrado totalmente na personagem Fern, interpretada magistralmente por McDormand. Na Grande Recessão de 2008, a cidade em que Fern vive com a família some do mapa. Vazia tanto interiormente como exteriormente, ela parte para o oeste americano, vivendo em sua van como uma nômade, sem eira nem beira.
Tentando superar o luto pelo marido, passa por empregos temporários em muitas cidadezinhas, enfrentando contratempos e fazendo amigos. A história de uma mulher que opta pela liberdade do nomadismo como estilo de vida, impossível não lembrar de Telma & Louise (1991). Mas agora os tempos são outros, capitalismo tardio, trabalho precarizado, crise imobiliária… uma nova paisagem americana.
Dirigido com grande sensibilidade por Chloé Zhao, a película consegue unir grandes contradições em sua montagem (também de Zhao), contrapondo cenas aparentemente soltas no tempo, indo e vindo, fazendo dialogar a liberdade com as dificuldades, a natureza com o tédio, o trabalho braçal com o ócio criativo, integrando os opostos de um país em pedaços, de uma mulher em pedaços. Nessa estrada sem fim, ali na frente sempre parecerá melhor.
Nomadland é adaptado (também por Zhao) do livro da jornalista Jessica Bruder, que sempre escreve em seus livros sobre subculturas. Muitos críticos consideram a película como um híbrido entre documentário e filme, mais uma contradição que Zhao une com perfeição. E nesse híbrido a américa mostra sua podridão cheia de beleza; no som do vento, no poente, nas rodas de amigos, na solidariedade, no bebê sorrindo, em suas cores… tão lindo que parece ficcional.
Quando o filme começa, mergulhamos rapidamente na vida de Fern, e a entendemos muito bem, nos identificamos através da vontade de um pouco de nomadismo. Os dias passam pesadamente, mas estranhamente de forma muito leve. Nota 10.
Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas.
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