O diretor e roteirista Steve McQueen, ganhador de prêmios como o Oscar, BAFTA e Festival de Veneza entre outros, construiu uma narrativa dividida e cinco episódios longos, baseados em fatos reais e autobiográficos, mergulhando na vida dos cidadãos da comunidade negra de Londres de 1969 a 1982. Cada episódio gira em torno de um lugar, elemento ou personagem que, de alguma maneira, contribuiu para a comunidade ter seus direitos respeitados em território londrino.
Podemos tratar o projeto como uma minissérie fílmica. Small Axe pode ser visto como cinco longas diferentes, mas com temáticas parecidas, ou como uma minissérie que gira em torno de problemas comuns, levantando duras questões contemporâneas. “Mangrove”, “Lovers Rock”, “Alex Wheatle”, “Education” e “Red, White and Blue”. A produção é da Amazon, mas está disponível no Brasil pelo streaming Globoplay. Todos os episódios são ótimos e premiadíssimos, mas sem dúvidas dois se destacam em grandiosidade: “Mangrove” e “Lovers Rock”.
“Mangrove”, nome de um restaurante em Notting Hill, frequentado por pessoas negras, é o mais impactante. A trama gira em torno de seu proprietário Anthony, interpretado por Darren Braithwaite, na luta para manter seu restaurante aberto a qualquer custo e sob grande pressão. Um restaurante negro no coração de Notting Hill, inadmissível na época.
“Mangrove” sofre uma divisão no meio de sua narrativa. Steve McQueen transfere toda a trama para um tribunal sem perder a carga emocional e dramática da primeira parte do longa. “Mangrove” transpira emoção e significados em seus detalhes. Com Bob Marley tocando ao fundo e o provérbio sobre o pequeno machado (small axe) cortando a grande árvore, o indivíduo fraco e o coletivo invencível. O restaurante Mangrove torna-se ponto de discussão, de debates, não revela diretamente nada de religioso, mas temos Ogum e sua espada empunhada o tempo todo. E não se pode deixar de dizer que “os nove” de Mangrove deixa “Os Sete de Chicago” comendo poeira.
“Lovers Rock”, ao lado de “Nomadland”, é o filme mais incrível de 2020. Pena que não estará ao lado de “Nomadland” na entrega do Oscar deste ano. Nesta trama não há protagonista físico, palpável. A grande protagonista da trama, que se desenvolve em um período de 12 horas, é a música e tudo o que ela nos provoca a sentir ou agir. As subtramas do filme acompanham os ritmos da noite, cada música funciona como uma vinheta, fazendo surgir conflitos, risos, choros, amores, dores.
“Lovers Rock nos abraça silenciosamente e, quando percebemos, estamos em catarse, reverberando nossas emoções nessas subtramas. Somos envolvidos como em um ritual estranho, possuídos por uma forte vontade de “muvucar” com um copo na mão. Só assistindo pra entender e sentir.
Seja forte, não saia de casa.
Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas.
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