Toda vez que um colega morre, fico imaginando que no céu tem um bar em que todos os jornalistas que já se foram se reúnem para lembrar suas façanhas.
Na semana que passou, o grande Jota Oliveira foi se juntar a tantos outros bons lá em cima e só posso imaginar que a reunião aconteceu em uma sucursal do Bar do Jaime, com direito aos azulejos “azul calcinha”, chopp gelado e uma farta porção de costelinha de porco acompanhada de mandioca. E para abrir o apetite, uma dose de “cu de burro”, uma espremidinha de limão e sal, tudo servido num balcão de fórmica igual ao que o Jota tem.
O icônico bar londrinense, localizado no Centro Comercial desde 1972, sempre foi um ponto de encontro dos jornalistas locais. O grande Jota, que por anos foi correspondente da Folha de S. Paulo e era especializado em jornalismo agropecuário, era um assíduo frequentador, assim como todos nós.
O ano era 1986 e estava cursando o último ano de jornalismo na UEL. Foi nesse ano que conquistei meu primeiro emprego remunerado e publiquei minha primeira reportagem. Até hoje é uma das que mais gosto.
A ideia da pauta era contar a história de um dos prédios mais antigos de Londrina, o Júlio Fuganti, uma joia da arquitetura local. Algo fácil para quem não tinha experiência. Havia muitos mitos em torno do prédio, como histórias de fantasmas e suicidas.
A pauta surgiu em uma das inúmeras escapadas que dávamos para a “sucursal”, o citado Bar do Jaime, também localizado em outro conjunto arquitetônico histórico da cidade, o Centro Comercial. Acho que íamos à redação somente para escrever. O resto do tempo era na rua, ou no Jaime. E depois que a jornada terminava, íamos ao Jota, outro bar histórico da cidade.
Por si só, a arquitetura do Fuganti chama a atenção até hoje. Construído em forma de triângulo, dependendo do ângulo que se olha, parece uma enorme parede. A arquitetura ousada é do engenheiro Américo Sato e foi erguido pela Construtora Veronese.
O Fuganti tem 12 pavimentos com 11 salas em cada um. Alguns escritórios comerciais estão lá desde a sua inauguração, em 1959.
Durante um período, o edifício ganhou uma fama pela grande incidência de suicídios.
Ainda hoje rende algumas histórias mal-assombradas contadas por usuários e funcionários antigos. Passos, luzes piscando ou vultos passando são narrados, construindo a mítica em torno do edifício. Fui lá em busca dessas narrativas.
Chegando lá, a foquinha aqui, nem sabia por onde começar. Lembro que na época os ensaios do Grupo Proteu e a Rádio Paiquerê funcionavam no edifício, que também abrigava escritórios de advocacia e de contabilidade e também tinha algumas moças que alugavam os apartamentos para ganhar a vida. Descobri tudo através do ascensorista, um pernambucano que trabalhava há anos no prédio.
Para fazer a matéria tive a ideia de ficar andando de elevador e ali fui colhendo as histórias. Acabei fazendo duas páginas de reportagem, com direito à manchete do dia. Para retratar a balbúrdia que era o Fuganti na época , o título foi “Torre de Babel”.
Pena que, com o tempo e as inúmeras mudanças, acabei perdendo a edição. Mas ainda bem que o Jaime e o Fuganti resistem ao tempo, fazendo parte da história e do imaginário da cidade. Assim como o inesquecível Jota, que foi fazer suas reportagens do lado de lá.
Raquel Santana

Já foi jornalista, acha que é fotógrafa, mas nesses tempos de Covid-19 ela só quer sombra e água fresca no aconchego do seu lar. Vendo seriados, óbvio!
Foto: Baixa Experimenta

