Telma Elorza
O LONDRINENSE
O moço andava apressado, pensando nos seus problemas, olhando para a calçada. As calçadas de Londrina sempre foram perigosas. Era preciso prestar atenção para não tropeçar e levar um tombo daqueles. Já tinha acontecido. Nunca mais queria passar uma vergonha daquelas.
Sua mente vagueava entre o saldo negativo no banco e a reflexão sobre as calçadas e, por isso, não prestou muita atenção na mulher que passou por ele, apressada. Viu apenas um borrão preto e branco. Mas o movimento conseguiu distrair os pensamentos e levantou os olhos por um momento.
Foi o que bastou para ficar hipnotizado. Na sua frente, seguia uma moça de calças pretas justas e blusa branca. Corpo curvilíneo, bem fornida (como diria sua vó materna) nas ancas. O movimento dos quadris era ótimo de observar. Porém, seus olhos fixaram foi mesmo numa marca de giz branco bem na polpa da bunda, vestida de preto. Uma marca de mão espalmada, que parecia dar tchauzinho para ele, enquanto a moça andava.
Aquela marca de mão de giz o fez esquecer completamente as estratégias que bolava para pagar os boletos sem um centavo no banco. O que teria acontecido para que a moça ostentasse tal marca sem a menor preocupação? Um namorado professor, talvez um pouco mais ousado, em carícias diurnas? Um gesseiro inoportuno a teria assediado? Alguém tinha deixado aquela marca ali e o moço estava agoniado para saber a resposta.
Apressou um pouco o passo para observar mais de perto. Sim, com certeza era uma mão espalmada. Os cinco dedos abertos. O desenho era quase perfeito, embora um pouco falho em algumas partes. Calçadas traiçoeiras fugiram totalmente de sua mente e andava agora com o passo firme e olhar à frente.
Na esquina, conseguiu emparelhar com a moça que esperava o sinal para atravessar a rua. Ficou na dúvida. Avisava ou não que tinha uma mão na bunda dela? Se avisasse, ela poderia ficar sem graça dele ter observado. Se não avisasse, a mulher poderia passar por situações constrangedoras.
Enquanto se debatia com o dilema, o sinal abriu e a moça começou a andar. Continuava na mesma direção que ele. Foi atrás, medindo os passos, enquanto decidia. Resolveu. Iria emparelhar com ela e avisar. Era seu dever moral não deixar a menina passar por mais vergonha.
No momento em que decidia ser um cavalheiro, a moça parou na porta de um prédio, abriu e entrou, sumindo de suas vistas. Chegou até a porta e ainda tentou procurá-la. Em vão. Tinha desaparecido.
Seguiu seu caminho ainda pensando na mão de giz dando tchauzinho para ele. Pena que tinha perdido a oportunidade. Ela era bem bonita. Tropeçou num buraco, caiu e ralou as mãos e cotovelos, em frente a uma loja cheia de gente.
Foto: Pixabay

