Mulheres à frente de seu tempo

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Raquel Santana (*)

Vim de um lar em que pode ter faltado muitas coisas, menos o cuidado, zelo e amor da minha mãe. Uma casa simples, mas cheio de afeto, liderada por uma mulher árabe, aonde sempre cabia mais um. Não foram raras as vezes em que ela acolheu primos ou filhos de amigos, seguindo o exemplo de sua avó e de sua mãe. Em casa sempre cabia mais um, nem que fosse para dividir um prato de arroz com feijão. E sempre tinha um colchão sobrando. Coração de mãe realmente é grande. O da minha não cabia nela, de tão grande.
Minha mãe foi pai e mãe, igual a centenas de milhares que existem por aí. Normal nos dias de hoje, mas um escândalo na década de 60. Ela era “desquitada”, um peso para as mulheres de sua época. Mas não para ela. Aquariana, costumava dizer: “Estou cem anos à frente do nosso tempo”. E estava mesmo. Assim como a mãe dela, minha avó Sophia.
Os árabes têm por hábito casarem entre si. Minha avó e meu avô, chamado Felicio Jonas Tannuri eram primos. Em segundo grau, mas eram.
Meu avô chegou já adulto no Brasil. Fugindo à regra e da guerra, era um árabe católico. Homem culto e inteligente, falava cinco idiomas. Além do português e do árabe, também falava fluentemente francês, inglês e espanhol. E fazia contas de cabeça. Também tinha uma memória fantástica. Esperto, não demorou a fazer fortuna.
Chegou primeiro ao Rio de Janeiro e de lá seguiu para o interior de São Paulo. Montou uma concessionária de carros. Minha avó dirigia os carros pela região em plena década de 30. Moderna para a época.
Um belo dia meu avô saiu de casa para comprar cigarros e foi parar em Buenos Aires com uma atriz gringa que conheceu numa viagem. Voltou um tempo depois com uma mão na frente e outra atrás e o rabo entre as pernas. Minha avó nunca mais foi a mesma. Entrou em depressão. A lembrança que guardo dela no fim da vida é a de uma pessoa sentada na sala, com o olhar parado.
Mas também guardo dela uma memória degustativa. As melhores refeições foram feitas por suas mãos. Minha mãe herdou o dom, assim como minhas tias. E claro, nós também. Cozinha de árabe é o palanque familiar. É nela que decisões importantes são tomadas. É pela comida que as gerações se unem. E foi na cozinha que minha avó se fez presente.
Apesar de tudo, meu avô não foi um homem machista. Dos sete filhos – três homens e quatro mulheres – colocou todos para estudar. Minhas tias foram excelentes professoras e contribuíram na formação de muita gente. Minha mãe passou num concurso público e foi ser agente de saúde. Cresci entre vacinas e remédios. Se tinha campanha na escola, lá estava eu, primeira da fila para dar exemplo e mostrar que não doía. Perdi as contas de quantos reforços tomei. Devo ter me imunizado pelo resto da vida.
Uma das melhores lembranças que guardo da minha mãe foi o cuidado que teve com minha alimentação. Muito magra e enjoada para comer, minha mãe insistia em me fortalecer. Todos os dias quando acordava, tinha um ovo “quente” me esperando. Só que o intervalo entre ela fazer e eu comer, o ovo já estava frio. Até hoje não como sem chorar de saudades. Também fazia questão que tomasse leite, muito leite. Num tempo em que o trabalho dos agentes públicos, como forma de reconhecimento pela população, era recompensado com produtos da terra, os funcionários do centro de saúde viviam ganhando produtos da roça. Vinha de saco. Milho, manga, mandioca. Dependia da estação.
No armazém do seu Tufik, outro turco da cidade, se vendia de tudo. Naquela época pouca coisa era industrializada. Lembro da massa de tomate Elefante , do pêssego em calda e do leite condensado e creme de leite Moça, todos um clássico até hoje. Misturar o creme de leite com o pêssego era nossa sobremesa de domingo. Mas o que eu amava de verdade, com todas as minhas papilas gustativas, era do leite condensado. Quando chegava o estoque, o Sérgio, filho do turco, cochichava a novidade no meu ouvido. Corria pra casa pedir pra mãe, que “pendurava” as compras no armazém. Tudo anotado num caderno de brochura. Se ela liberasse, o bom era fazer dois furos na tampa e literalmente “mamar” na lata. Ô delícia.
Hoje, dia das mães, não poderia deixar de lembrar do último que passei com ela. Foi há cinco anos, no hospital. Ela sofreu um acidente com o fogão a gás e ficou mais de 50 dias lutando bravamente pela vida. Passamos eu e minha irmã com ela. Lembro que fiz muitas palhaçadas, entre elas a que, quando ela saísse, iríamos correr a São Silvestre. Peladas. Rimos muito disso e todas as mulheres da família aderiram à ideia. Minha mãe não resistiu. Foi-se quase um mês depois daquele maio de 2015. Não tem um dia que não lembre dela e sinta saudades. E vivo ouvindo a sua voz. Seja numa frase que se encaixa numa situação, ou numa música que ela gostava. E não tem um dia que eu não questione o que ela estaria pensando disso tudo que estamos vivendo. Como boa aquariana que era, aposto que estaria batendo panela na janela e exigindo um país melhor. Como sempre fez em sua vida. Saudades de filha também dói.
(*) É jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina

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