Da ficção para a realidade

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Raquel Santana (*)

Em plena pandemia, sair de casa tem sido um ato de bravura e coragem. Mas para quem necessita de comida e cuidados médicos, como eu, tem sido inevitável. Eu não sei vocês, mas tenho me sentido muito mal nessas poucas e necessárias “escapadelas” que tenho dado em plena quarentena. Apesar de cumprir todo o protocolo de segurança no quesito higiene e proteção, sinto os olhares de “o que está fazendo na rua”, como se a pessoa também não estivesse.

O auge da aventura da minha “vida bandida” foi ir ao centro de Curitiba e ser mandada para casa por um helicóptero da Polícia Militar. Por dez segundos, achei que estava em um filme policial, onde estava sendo procurada pela justiça e tinham me encontrado! As ruas vazias da área central em plena luz do dia de semana, contribuíram para o roteiro.

No supermercado tive a mesma sensação. Pessoas de máscara cirúrgica correndo uns dos outros pelos corredores, enchendo alucinadamente os carrinhos de produtos de limpeza, álcool gel e papel higiênico.

Logo no início da quarentena, na minha primeira ida ao supermercado, me deparei com uma senhora e seus quatro carrinhos lotados de papel higiênico. Me perguntei pra que tanto? Quantas bundas têm naquela casa para limpar? Em outra ocasião, o cliente da minha frente havia gastado R$ 1.658,00 em compras. Comprou comida para um batalhão.

Mas o ápice do estresse foi no açougue. A cliente brigando com a proprietária porque o lugar estava aberto. Mas ela não estava lá, comprando? A bonita levou mais de R$ 450 em carne. Vai entender.

Já repararam que no comércio os ânimos estão exaltados? É gente reclamando que quer manter as portas abertas. É gente reclamando justamente porque estão abertas. Até passeata fizeram para isso. O único consenso é que estamos ferrados.

Em entrevista ao Roda Viva, o biólogo Átila Iamarini lembra que o mundo que conhecemos não será mais o mesmo depois dessa pandemia. Quem se arriscou a sair de casa já tem certeza que não é.

Tudo o que vi em filme de ficção científica, hoje vejo passar pelo vidro do carro enquanto ando por uma cidade semi deserta. Já não sei mais em que dia da semana estamos, tomo café da manhã na hora do almoço, janto na madrugada, durmo de dia, vago pela noite. Meu fuso horário está em outro ritmo. Computo a vida pela luz da janela.

Amigos que moram na Europa e estão na quarentena há mais tempo do que nós afirmam que o pior ainda está por vir. E por mais que saibamos disso, é difícil lutar contra um inimigo invisível, mas que sabemos existir. E é fatal. O mundo de hoje é um lugar inóspito para se viver. Que nem naquele filme com o Tom Cruise, Guerra dos Mundos, em que os extraterrestres são derrotados pelas bactérias. Nesse caso, os papéis se invertem e somos nós que perdemos para o vírus. Por enquanto.

E por falar em filme, dois deles – premonitórios – encontram-se disponíveis na plataforma de streaming Netflix: Pandemia e Epidemia. Pois é, a arte também imita a vida. Infelizmente.

(*) Jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina.

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