Raquel Santana (*)
Embora me ache afetiva e carinhosa, não sou uma pessoa “grudenta”, nem mesmo com os meus afetos mais próximos. No verão, então, viro um porco espinho. Quero distância de tudo e de todos, já basta o calor da natureza. E não é que agora, justo agora – que para o bem da saúde coletiva é necessário o distanciamento – , ando com uma saudade danada de abraçar. Abraço de tamanduá, daqueles de perder o fôlego e que te levantam do chão.
Vocês já repararam como tem gente que abraça gostoso? Fazia tempo que não prestava atenção nisso. Basta uma proibição que tudo fica melhor. Fui uma menina tímida e embora tenha sido criada num lar amoroso, talvez pelo fato de ter pai ausente, parece que sempre “faltou” alguma coisa. Então, me apegava nos amigos. E quantos amigos não deixei nas terras por onde andei. E hoje, aqui trancada em casa, lembro de cada um deles e morro de gratidão e saudades.
Somos a soma de nossas experiências e escolhas. E das pessoas que conhecemos. Sou muito grata por cada amigo que tenho.
Sempre gostei de ter turma. Na infância e adolescência tive a minha. Geralmente estava relacionada com os estudos. Do jardim de infância até o cursinho, foi a mesma turma. Cidade pequena, as crianças da mesma idade estudam todas juntas. Na sala, tinha o mais inteligente, o mais bagunceiro, o mais bonito e por aí vai. Eu sempre fui a “criativa”. Não sei por que.
Em cada cidade que morei, deixei uma turma. Quando volto, é como estar de volta para um lugar conhecido e aconchegante.
Assim como eu, vocês também têm amigos que podem ficar décadas sem ver e quando se encontram novamente parece que foi ontem? O assunto engata de onde parou na última vez em que se viram e a vida segue como se o tempo não tivesse passado. É voltar para casa sem nunca ter saído.
Por ter morado até o começo da vida adulta praticamente na mesma cidade, quando sai em busca de estudos que me dessem uma profissão, confesso que senti medo de não me encaixar. Passei em três cursos, dois deles na cidade vizinha a que morava. Mas escolhi Londrina. Queria viver longe, ter novas experiências. Primeiro fui morar num pensionato, cheio de meninas riquinhas, onde fui discriminada sem dó nem piedade. Na sequência, descobri na cidade as famosas repúblicas de estudantes, uma novidade para a caipira que eu era.
A primeira que fui morar não deu certo. Já contei essa história por aqui. Fui resgatada num dia de chuva por uma turma para lá de especial. Que anos maravilhosos dividi com essas pessoas. Uma turma eclética, onde a “criativa” se encaixou feito uma luva.
Dividimos amores, receios, alegrias, comida, afetos, desafetos. Amigos que foram e são de uma vida. Amigos que a internet reuniu de volta e é graças à ela, a internet, e a eles, os amigos, que esses dias infinitos de reclusão têm sido mais suaves. Então, quando tudo isso passar, meu coração peludo que mais é de pelúcia, quer se jogar no meio da galera e distribuir abraços. Que nem aquelas pessoas que ostentam cartazes com “free hugs”, abraços grátis, em público. Pois o amor é de graça. E será muito bem-vindo depois desse distanciamento necessário.
Foto: Acervo pessoal
(*) Jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina


