Raquel Santana (*)
Tive professores ótimos no meu curso de Comunicação social na UEL. Demos muita sorte de pegar profissionais que estavam chegando de seus doutorados e mestrados de várias partes do mundo, cheios de amor e conteúdo para ensinar. Nos loucos anos 80, até as aulas da UEL não eram nada convencionais.
Vim de uma região muito quente, localizada bem no meio do centro do Estado de São Paulo. Cresci entre Boa Esperança do Sul e Araraquara, esta última que em tupi-guarani quer dizer “Morada do Sol “. Então dá para imaginar o calor. É tão quente que eu mal tinha roupa de frio. Então, quando chegou o inverno em Londrina, foi muito difícil para mim. Achava a sala de aula um verdadeiro freezer.
Recém chegado da Bélgica , nosso professor de Semiologia, o inesquecível Ivan Santo Barbosa, não teve dúvidas: transferiu nossas aulas para o lado de fora da sala de aula , e lá fomos nós aprender semiótica na luz e calor do sol. Lembro até do gelo derretendo sob meus pés na grama. Ivan foi um dos meus mestres preferidos e tive o privilégio de ser sua aluna em duas ocasiões, na graduação e na pós.
No final dos anos 90 fui morar em São Paulo e resolvi voltar aos estudos para fazer uma pós-graduação em Marketing Empresarial. E qual não foi minha surpresa ao ver na minha grade de matérias, o nome do meu amado mestre. Já no primeiro dia de aula ele veio entregando todas as loucuras que tinha feito na graduação. Logo de cara já ganhei fama de louca entre a turma. Na época, por coincidência, ele estava chegando de um pós-doutorado no Japão.
Meu caro mestre e amigo não deixou de ser anti convencional no ensino com o tempo. A pós também saiu do padrão. localizada em plena avenida Paulista, a Cásper Líbero e suas escadarias eram um convite para a rua. Tivemos aula em bares e cafés e o auge da transgressão foi uma visita à uma exposição de Fernando Botero, no MASP. O artista colombiano trouxe cerca de 80 obras ao Brasil, entre elas suas famosas esculturas em que retrata mulheres obesas.
O MASP fez uma brincadeira em que as pessoas, digamos, fora do peso ideal, podiam se pesar e, de acordo com o número da balança, ganhava desconto no ingresso. Ivan entrou de graça! Fiz um ano de pós e fui embora para Portugal. Perdi contato com meu querido amigo e mestre. Não sei por onde anda. De acordo com o Google, ele está em São Paulo, dando aula na USP.
Também pouco convencionais foram as aulas de Comunicação ministradas pela carioquíssima Sônia Weill, hoje aposentada, londrinense da gema e minha amiga. As aulas eram dadas no anfiteatro do Ceca. Eram aulas de laboratório teatral, feitas para “soltar” os futuros jornalistas. Lembro de uma apresentação de trabalho em grupo que fizemos.
A gente se soltou tanto que fomos praticamente pelados para o anfiteatro. Emprestei um vestido completamente transparente que uma das meninas da Casa Verde, nossa república, tinha usado numa peca teatral sobre a vida da Janis Joplin. Feito num voal rosa choque bordado, completamente transparente. Vesti e antes e depois da apresentação andei tranquilamente numa manhã qualquer pelos corredores da universidade. Vergonha a gente não tinha.
Já as aulas das manhãs frias de inverno no sol dos gramados da Uel, eram a ocasião perfeita para os concursos que realizávamos para ver quem acumulava mais bolinhas nas meias. O lance era dormir com as mesmas pra ganhar no dia seguinte. Bobeiras que nossa turma, também nada convencional, cultivava só pelo prazer de rir da vida.
(*) É jornalista radicada em Curitiba, mas apaixonada por Londrina

