Descaso faz Parque Arthur Thomas perder visitantes

Local já foi o segundo atrativo natural mais visitado do Paraná; falta de manutenção e estragos causados por tempestades contribuíram para declínio

Loriane Comeli

Equipe O LONDRINENSE

Inaugurado há quase 32 anos, o Parque Municipal Arthur Thomas é um importante local de lazer e contemplação, embora o número de visitantes tenha caído ao longo dos anos e os problemas ambientais e de manutenção sejam cada vez mais visíveis.

Para se ter uma ideia, o parque, de 84 hectares, já foi o terceiro atrativo natural mais visitado do Sul do País. Em 2015, foi o segundo do Paraná, na frente do Parque Estadual de Vila Velha, em Ponta Grossa, e perdendo apenas para o Parque Nacional do Iguaçu.

Em 2000, conforme dados da Secretaria Estadual de Turismo, o Arthur Thomas recebeu 159.550 visitantes. Em 1998, foram 145 mil e em 1999, 144 mil. Uma década depois, em 2008, o número havia caído muito – para 63 mil visitantes.

Mesmo sem voltar a atingir aquele patamar histórico do final dos anos 90, em 2015, quando o número de visitantes foi de 58,1 mil pessoas, o Arthur Thomas foi mais visitado entre os parques estaduais e municipais do Paraná, na frente de Vila Velha (48,9 mil); do Daisaku Ikeda (26,5 mil); e do Guartelá (16,8 mil), segundo números da Secretaria Estadual de Turismo. Nesse ano de 2015, 916 mil pessoas foram ao Parque Nacional do Iguaçu.

Baixo nível das águas propiciou a formação de ilhas

O declínio mais acentuado aconteceu em 2016, quando o Arthur Thomas ficou fechado praticamente o ano todo, em razão de uma tempestade em janeiro – o número de visitantes foi de apenas 2.372.

Parte do que a chuva destruiu, naquele janeiro, ainda não foi recuperado: as encostas próximas à Usina Cambé, primeira usina hidrelétrica de Londrina, o acesso à usina, além de trilhas e mirantes.

À época do desastre, estimava-se um gasto de pelo menos R$ 9 milhões para reconstruir o parque. Em novembro de 2017, um novo temporal causou novos deslizamentos de terra e novamente o parque foi interditado, porém, reabriu em dezembro e entre 2016 e 2017 parte da estrutura danificada pelas chuvas foi recuperada.

Animais silvestres estão sujeitos a furtos

Em 2017, o número de visitantes aumentou para 23.124. Em 2018, houve recuperação: 34.409 visitantes. E em 2019 até 24 de fevereiro, 6.011 pessoas visitaram o parque.

“Queremos devolver à população o parque, se não tal qual ele era, porque aquilo que a natureza leva embora, muitas vezes, a gente não tem como reconstruir, mas trazer melhorias que a gente consiga ser de novo o terceiro parque mais visitado do Sul do País”, disse Simone Vicchiatti, técnica de gestão pública da Secretaria Municipal do Ambiente (Sema). Como se trata de obras de elevado valor, a secretaria está desenvolvendo estratégias para captar recursos ou financiamento de outros entes públicos.

Entulho acumulado à beira da ponte: assoreamento é um dos problemas do lago do Parque Arthur Thomas 

Velhos problemas nunca solucionados

Além dos problemas causados pelas chuvas, há problemas preexistentes ou de manutenção que também fazem parte do programa de ação de Sema. Um dos mais graves é o assoreamento do lago formado pelo represamento das águas do Ribeirão Cambé, cuja nascente é na PR-445, próximo ao Parque Ney Braga. Não é um problema novo.

O Plano de Manejo do Parque Arthur Thomas, elaborado em 2004, quando os visitantes ainda podiam alugar um pedalinho e percorrer a represa, já advertia para o problema do assoreamento das águas:

“No entorno do Parque podem ser vistos pontos onde atuam livremente processos erosivos. As águas provenientes do sistema de galerias pluviais transportam estes sedimentos, bem como materiais diversos provenientes de ações humanas, para o interior do Parque. O principal reflexo disso é observado no lago do Parque, que está sendo assoreado rapidamente.”

Sobre os pedalinhos, o estudo alertava: “Essa atividade encontra-se ameaçada, pois a grande quantidade de sedimentos no lago tem provocado o assoreamento deste e consequentemente prejudicando sua navegabilidade.” De fato, algum tempo depois, os pedalinhos foram desativados.

De lá pra cá, passados 15 anos, nada foi feito e um grande ilha se formou ao lado esquerdo do lago. Até pouco tempo, criando uma visão bastante irônica da realidade, ela era roçada por trabalhadores que chegavam até lá em pequenos barcos.

Agora, além do mato, crescem várias árvores na ilha, que aumenta consideravelmente de tamanho. Uma segunda ilha, à esquerda, tem formação mais recente. Hoje o lago é bastante raso em praticamente toda a sua extensão. Nas partes visíveis, a profundidade não chega a 20 centímetros.

O Plano de Manejo, em 2004, sugeria o desassoreamento do lago. “A proposta é que o lago seja desassoreado, mediante a retirada dos sedimentos acumulados em seu leito, restaurando assim, a profundidade próxima da original. Para que este subprograma atinja seus objetivos, ele deve ser integrado com a construção da mureta de contenção, com a construção do sistema de galerias pluviais e com a limpeza constante do Parque”, diz o documento.

A medida não está fora dos planos da administração, mas custa caro. Vecchiatti disse que estudo elaborado em 2013 apontava que o gasto seria de pelo menos R$ 5 milhões. “Não é nova a ideia de desassorear, de trazer melhorias, só que está tudo ainda no papel. Estamos fazendo uma leitura de tudo, uma compilação. Aí temos que fazer novos projetos, novos orçamentos.”

O assoreamento é causado pela própria população e pela ineficiência do poder público em criar medidas para fiscalizar e punir que descumpre as mais básicas normas urbanísticas e ambientais, como jogar lixo, folhas ou outros materiais nas ruas ou diretamente nos bueiros; edificais seus imóveis acima do limite de 80%, dificultando a permeabilização; podar ou deixar de repor árvores erradicadas. 

Mato toma conta das margens do lago

Todos os detritos chegam ao leito da represa pelas galerias pluviais, levadas pela água da chuva. Em 2004, o Plano de Manejo já apontava que parte do problema era causado por sedimentos vindos de córregos que desaguam no parque e, em especial, dos Córregos Piza e Carambeí, que deságua na represa.

“Devido à morfologia do terreno, tais águas chegam ao lago com uma carga de sedimentos elevada. Com a brusca perda de energia devido ao represamento, os sedimentos transportados são depositados, originado amplos depósitos que podem até mesmo gerar elevações acima do nível da água do lago”, constatava o Plano de Manejo.

Se nada for feito nos próximos 15 anos, o prognóstico não é bom. “Não vamos dizer que o lago vai secar: vai ficar com uma lâmina, o rio vai correr nessa pequena lâmina. O problema disso: quando vem muita chuva essa água toda que não tem para onde ir vai levando tudo”, explicou Vecchiatti. Ou seja, o excesso de chuvas, como as de janeiro de 2016, pode voltar a causar estragos justamente por não haver escoamento, já que o represa está secando.

Manutenção e melhorias urgentes

Outros problemas também precisam de atenção, como a reconstrução da cerca para evitar furto de animais e de madeira e o despejo de entulho; instalação de câmeras e melhorais na iluminação para melhorar a segurança; construção de passagem aérea ou subterrânea para que os animais possam ir para o anexo do parque (entre a Rua da Natureza e Avenida Europa) em segurança; melhoria da acessibilidade para idosos e deficientes físicos; construção de pista de caminhada no entorno (parte externa).

Parquinho infantil é um dos poucos atrativos que ainda levam famílias ao local

“Estamos analisando as necessidades do usuário e do parque. São ideias; ainda não há projetos”, declarou Vecchiatti. “Há algum tempo instalamos um parquinho infantil e só isso virou uma febre: o pessoal vem para levar os filhos no parquinho. A população é carente de locais de lazer e o mínimo que se faz já muda.”

Quem vai ao parque também encontra muitos animais: um bando de macacos-prego, com cerca de 30 membros; quatis; cobras; cutias; lagartos; e diversas espécies de aves. As capivaras que viviam no parque e se banhavam no lago não foram mais vistas. A hipótese é que tenham migrado.

A maior parte da área do parque – 61 hectares – foi doada ao município em 1975 pela Companhia Melhoramentos do Norte do Paraná. Em 1983, a prefeitura desapropriou mais 25 hectares do entorno, perfazendo os 84 hectares atuais e inaugurou o parque em 10 de dezembro de 1987: havia além do lago artificial e pedalinhos, estacionamento, acessos pavimentados, a Usina Cambé restaurada, alojamento para a Polícia Florestal, lanchonete, zoológico, mirante, área para descanso, portal de entrada, viveiros de mudas e sanitários.

Clique e conheça o Plano de Manejo do Parque Arthur Thomas, elaborado em 2004, que já advertia para o problema de  assoreamento das águas do lago:

http://www1.londrina.pr.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=251&Itemid=199

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