Por professor Renato Munhoz

Antes de você, o que havia no lugar onde você vive?

A natureza tem um código de preservação, que guarda as condições de vida dos lugares. Árvores, plantas, nascentes não estão ali à toa. Existe um porque. Ao altera-los, estamos de certa forma mexendo nas condições do lugar e, quem sabe, criando um impacto com resultados futuros que poderão, além de afetar o lugar onde vivemos, nos atingir em cheio.

Veja o exemplo de árvores com raízes menores. Geralmente estão nas encostas, nos morros, porque a distância entre a pedra e a superfície é menor. Por isso elas já nascem com estas características próprias (é o código). Existem plantas que, quando nascem na roça, indicam a qualidade do solo, apontando a correção a ser feita antes do plantio, por exemplo. Quando encontramos uma nascente de água em um local preservado, a tendência é de que a água esteja limpa, pois todas as condições do entorno, fazem a função de filtro e contribuem na sua preservação.

É importante construir ou reconstruir a “memória ambiental”, porém na maioria das vezes não conseguiremos devolver para o local onde vivemos suas características originais de preservação.

Outro agravante é a ocupação urbana desordenada, a ausência de planejamento nas cidades, retirando as condições naturais do local, sem o mínimo de correção ou reparação ambiental. Causando os impactos que estamos assistindo. Os deslizamentos em Petrópolis no Rio de Janeiro, em São Paulo, os alagamentos no Paraná, os garimpos ilegais na Amazônia, as barragens de minério em Minas Gerais. a crescente desertificação nos pampas gaúchos.

Estamos pagando o preço pela ausência de cuidado e consideração. Antes de cortar uma árvore, pergunte-se por que ela está ali. Antes de construir qualquer coisa, faça a reconstituição da memória ambiental daquele lugar. Para que as condições que garantam a saúde ecológica, não sejam retiradas dali.

Hoje corremos plantar árvores, desesperados com o calor que estamos vivendo. As altas temperaturas e as altas precipitações de chuvas estão relacionadas com as “biocondições”. O código natural está confuso e, desta forma, tenta se reorganizar. O comportamento humano não levou em consideração este diálogo com a natureza e pagamos o preço, somos parte deste “código”, temos nosso papel na sua preservação.

Para além das questões dos Bioindicadores, existe a latente questão social. Por exemplo, o fato de as famílias morarem muitas vezes em encostas e morros não se trata de uma escolha. Abandonadas a própria sorte pelo Estado, a única alternativa muitas vezes foi a ocupação dos lugares onde a “especulação imobiliária” não chega. Assim, além do risco social, existe um novo risco que passa a existir a partir dali. Muitas famílias convivem com os deslizamentos como algo do cotidiano. O que não deveria ser tratado como “normal”. Pois, se as políticas públicas tivessem alcançado estas famílias de forma antecipada, as biocondições estariam preservadas em todas suas dimensões: o ambiente, o humano e o bioma.

É uma tarefa a ser feita pelo Estado com a nossa participação. Garantindo aquilo que o artigo 255 da Constituição Federal reza: o papel de fazer que as condições de preservação ambiental sejam resguardadas, para que as futuras gerações possam usufruir de tudo aquilo que hoje se encontra ameaçado. Digamos que devemos ser os guardiões da biossegurança, preservando as biocondições.

Renato Eder Munhoz

Historiador e Teólogo, especialista em Educação Ambiental e Sustentabilidade. Coordenador de Projetos do COPATI (Consórcio de Proteção Ambiental do Rio Tibagi).

Foto: Colagem/Renato Munhoz

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