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Camboriú: uma linda praia à custa de que?

Por Renato Munhoz

Virou notícia o alargamento da praia de Balneário Camboriú. A antiga faixa de areia que era bem estreita em alguns pontos onde o mar praticamente encostava na calçada da orla. Agora em alguns locais o alargamento chega a cerca de 70 metros na maior parte da praia.

Pois bem. A tecnologia no mundo, desde algum tempo, tem se dedicado a ajudar o homem a resolver os impactos que ele mesmo causou por sua forma de ocupação nos territórios. Impactos estes que o colocam em risco em diversos aspectos, mas sobretudo o desenvolvimento atual que age na maioria das vezes quando sente-se ameaçado na questão econômica, conseguindo transformar tudo em mercadoria. Inclusive as praias.

Mas o que foi feito em Balneário Camboriú e por que foi necessário?

O que foi feito em Santa Catarina não é uma tecnologia nova. Copacabana, no Rio de Janeiro, é um exemplo. Desde algum tempo diversas praias no mundo passaram pelo chamado aterramento hidráulico, ou seja, toda matéria que naturalmente foi retirada pelo movimento das marés e o movimento dos oceanos, foi recolocada, foi reposicionada.

O trabalho é complexo. Após estudos da característica da areia, busca-se uma jazida em alto mar que seja capaz de fornecer areia o mais parecido possível com a original do local. Diminuindo desta forma o impacto sobre a praia e possibilitando que as características originais sejam preservadas. Bom, até aqui tudo aparentemente tranquilo.

Para além dos aspectos financeiros do custo de uma obra como esta, que no caso de Camboriú chegou perto dos R$70 milhões, existem duas perguntas que podemos fazer.

A primeira questão é: Porque foi necessário um aterramento hidráulico?

O mar sempre se movimentou e sempre carregou matéria e devolveu matéria. O que aconteceu na praia em questão e em outras praias aterradas pelo mundo. É que a quantidade de matéria devolvida se tornou menor do que a quantidade de matéria carregada. Os oceanos tem sua dinâmica própria e seu movimento é vivo. Ele precisa das matérias que recolhe nas areias para produzir alimento e condições de vida para os seres que nele habitam. É um bioma extremamente organizado.

As ocupações urbanas diminuíram significativamente o tamanho das praias. Chegaram muito perto do mar com a especulação imobiliária. A praia, que hoje é um grande mercado a céu aberto, atraí riquezas para nossos litorais. E muitas vezes estas ocupações são desordenadas e desacompanhadas de um planejamento. Em algumas cidades litorâneas, a população, que durante o ano chega perto dos cem mil habitantes, na temporada passa fácil de um milhão de pessoas morando por um tempo na cidade. E tudo isso tem um preço alto para a natureza.

Não bastasse a ocupação territorial, o clima no mundo tem sido alterado com grande velocidade e os impactos nos oceanos tem sido nítido. O aumento da temperatura na terra, o derretimento das camadas polares, tem aumentado o nível das águas nos oceanos, causando uma série de fenômenos novos. Diminuindo ainda mais a faixa de segurança nas praias. O que provavelmente irá impactar diretamente nestes aterros hidráulicos que poderão ter seu tempo de vida útil diminuído.

A segunda questão é: este aterramento resolve o problema?

Se o problema for ter uma praia maior, digamos que o aterramento hidráulico resolveu o problema. Mas sabemos que as questões são bem mais complexas do que simplesmente ter uma praia maior. Passa pela ideia de se ter uma praia melhor.

Não há objetividade nesta questão. Nem quanto a durabilidade do projeto, nem muito menos sobre quais os reais impactos para o bioma. O que se sabe é que urge um planejamento de entorno desta praia. Melhorando a forma de ocupação urbana, naquilo que já foi feito. Nos grandes prédios e avenidas, provavelmente, não se mexerão. Mas é necessário que haja um rol de politicas públicas ambientais, que colaborem diretamente na preservação da praia, criando inclusive espaços de maior preservação e menor ocupação. Cuidar do saneamento e do tratamento de resíduos que afetam a vida do oceano e na qualidade da areia.

Enfim, já existem projetos locais bem interessantes quanto ao gerenciamento do esgoto e da água que abastece a Camboriú, mas a atenção precisa ser redobrada. Porque o que está se vivendo ali é algo novo e toda população precisa ser envolvida neste cuidado.

Outra dimensão é de que o oceano continuará fazendo seu movimento e com isso o alargamento não permanecerá totalmente como foi recolocado. Mas a possibilidade de o mar voltar a ocupar as calçadas em tempos de maré alta como era comum, provavelmente não voltará a ocorrer.

Qualidade de vida na praia não pode deixar de ser qualidade de vida para os oceanos e a natureza.  Tenhamos consciência e façamos nossa parte, para que projetos assim não sejam corriqueiros. Afetando em larga escala o bioma oceânico. Ao que parece agora, está em disputa um novo aterro na praia de Matinhos no Paraná. Que envolve uma série de questões anteriores que não foram consideradas. Agora em relação as questões futuras, tenhamos total atenção. Pois por aí passa não somente o nosso fim de semana de sol na areia, mas toda uma vida das futuras gerações.

Renato Munhoz

Professor, teólogo historiador. Pós Graduando em Educação Ambiental e Sustentabilidade. Coordenador de Projetos do COPATI (Consórcio para Proteção Ambiental do Rio Tibagi).

Foto: Divulgação/Prefeitura de Balneário Camboriú

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