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O impacto da pandemia da COVID-19 na saúde mental de crianças e adolescentes: quem vai pagar esta conta?

Por Alessandra Diehl

A pandemia da COVID-19 gerou muito medo e ansiedade em milhares de pessoas ao redor do mundo. Esse fenômeno impactou a vida de muitas pessoas, mas certamente as crianças e adolescentes foram um dos grupos populacionais que tiveram a sua saúde mental fortemente afetada pela retirada abrupta da escola, com transformações nas dinâmicas escolares, da vida social, das atividades ao ar livre e das mudanças na alimentação. Isto é o que informa diversas pesquisas conduzidas neste período e publicadas em revistas indexadas da área, além da observação clínica de vários profissionais da área da educação, psicólogos, pediatras, psiquiatras, de pais e cuidadores deste público.

Dados de 21 países lançados na primeira semana de outubro deste ano pela UNICEF fazem um alerta importante com relação à saúde mental das crianças e revela que, globalmente, 1 em cada 7 meninos e meninas com idade entre 10 e 19 anos vivem com algum transtorno mental já diagnosticado. Em média, 1 em cada 5 adolescentes e jovens de 15 a 24 anos (19%) disse que, muitas vezes, sentiu-se deprimido ou teve pouco interesse em fazer coisas. Quase 46 mil adolescentes morrem por suicídio a cada ano, uma das cinco principais causas de morte nessa faixa etária. Um estudo canadense com adolescentes mostrou que a frequência do uso de álcool e cannabis aumentou durante a pandemia nesta população. Embora a maior porcentagem (49,3%) dos adolescentes praticasse uso solitário de substâncias, 31% ainda faziam uso de substâncias com colegas via tecnologia.

Este impacto na vida de crianças e adolescentes é incalculável, mas estima-se que os transtornos mentais que podem levar este público à incapacidade ou à morte podem acarretar uma perda econômica de US$ 390 bilhões por ano aos países. A qualidade e a magnitude deste impacto sobre as crianças e os adolescentes são determinadas por muitos fatores de vulnerabilidade, tais como: idade de desenvolvimento, status educacional, condição de saúde mental pré-existente, ser economicamente desfavorecido ou estar em quarentena devido à pandemia ou medo de infecção.

Apesar de toda esta demanda que já era crescente e significativa antes mesmo da pandemia, as necessidades de saúde mental e o financiamento de políticas públicas voltadas a essa área seguem muito aquém do necessário. O relatório da UNICEF constata que apenas cerca de 2% dos orçamentos governamentais de saúde são alocados para gastos com saúde mental em todo o mundo. No Brasil, a PORTARIA GM/MS Nº 3.350, DE 8 DE DEZEMBRO DE 2020 instituiu, em caráter excepcional e temporário, incentivo financeiro federal de custeio, para o desenvolvimento de ações no âmbito dos serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), no contexto do Enfrentamento da Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN) decorrente da Covid-19. Segundo informa o site, na cidade de Londrina, o CAPS Infanto-juvenil, por exemplo, também foi beneficiado com uma parcela única de R$ 32.130,00.

Este investimento pouco refresca as reais necessidades deste público e as inúmeras dificuldades que os poucos serviços públicos destinados a crianças e adolescentes enfrentam. Os resultados deste baixo investimento crônico são muitas crianças e adolescentes que não possuem condições de pagar um psiquiatra infantil ficarão sem um diagnóstico e acompanhamento adequados. Muitos vão cronificar seus sintomas e ter diversos prejuízos acadêmicos, sociais e laborais em médio e longo prazo. Crianças com maior poder aquisitivo certamente têm acesso a bons especialistas e a uma equipe multiprofissional que muitos destes casos exigem. Isto reforça a campanha da Organização Mundial da Saúde (OMS) que aborda a saúde mental em um mundo desigual. O lema deste ano é “Saúde mental para todos, vamos fazer isso uma realidade!”

O olhar dos nossos gestores deveria estar voltado para a óptica da psiquiatria do desenvolvimento, trabalhando, sobretudo, questões preventivas em saúde mental, como é a temática do consumo de álcool e outras drogas, por exemplo. Há uma necessidade premente de melhorar o acesso de crianças e adolescentes a serviços de apoio à saúde mental voltados para medidas que desenvolvam mecanismos de enfrentamento saudáveis durante a crise atual e, sobretudo, no pós- pandemia. Para isso, são necessárias políticas inovadoras de saúde mental para crianças e adolescentes, com redes colaborativas diretas e digitais de psiquiatras, psicólogos, pediatras e voluntários da comunidade. Se isso não for brevemente alcançado, o impacto da pandemia da covid-19 na saúde mental de crianças e adolescentes será ainda mais significativo. E quem vai pagar esta conta?

Alessandra Diehl

Psiquiatra, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD) gestão 2021-2023

Foto: Pixabay

 

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