Diário de Resistência: Raízes

Por Angela Diana

Sempre que começo a coluna, é muito difícil conseguir pensar em um título… E me dei conta agora que esse foi para lá de inconsciente! Quem se lembra daquela série superprodução dos anos 1980 (se não me engano!) chamada Raízes? Até hoje me lembro de uma das heroínas negras, cuspindo no copo da megera que foi a “sinhá’ (aquele tipo de vilã que a gente sabe que existiu e foi até pior e que perdemos total a nossa “humanidade”, porque ficamos torcendo a série toda para ela morrer e ir para o inferno!). Pois bem! Na coluna de hoje apresento para vocês duas obras extremamente importantes e íntimas minhas, que dizem respeito ao meu avô Ranulpho! 

Foto: Acervo Pessoal

Talvez até já tenha escrito sobre esse trabalho, mas para mim é uma forma de resistência sabermos e mostrar de onde viemos e como isso influencia no trabalho! E acreditem! TODOS, TODAS E TODIS artistas tem essa fonte e recorre à ela muitas vezes! O nosso DNA, nossas ancestralidades, o que nos fazem únicos no nosso trabalho…

Foto: Acervo Pessoal

Somos seres em construção, feitos de vários pedacinhos, como uma colcha de retalhos, cada pedaço de história, experiência, sabedoria, enfim, de várias, inúmeras pessoas que viveram antes de nós habitam nosso eu mais interior! Somos a soma de todas as pessoas que lutaram e viveram antes de nós! 

O painel maior, de 2,72×1,10m (que está em destaque na abertura da coluna) diz respeito a doença, a morte e a elevação do meu muito amado “paivô” para o plano espiritual… As caixinhas, com momentos da sua vida (momentos “chave”), descrevem, numa pequeníssima trajetória, seus ancestrais e a família que ele formou (lógico que, nem de longe, estão todos os netos, bisnetos e tataranetos! A família é enorme! Mas considerem-se presentes!).

Foto: Acervo Pessoal

A maior questão que abordei com essas obras foi a de que na minha família não fomos criados racistas! E isso, anos atrás, gerou uma enorme discussão com um internauta, que não queria em absoluto acreditar que eu, “branca e de olhos azuis”, não era racista! A mania que a maioria tem de colocar todo mundo na mesma caixa! Meu avô se orgulhava de mim e eu dele!

Foto: Acervo Pessoal

Assim como quando assisti o seriado Raízes (eu era adolescente e estava começando a me conscientizar das questões importantes do mundo) tinha altas crises de choro… As cenas cruéis me tocavam de tal forma, que não foi apenas uma ou duas vezes que chorava muito! E pensava em como meus ancestrais filhos da nossa mãe África (a ciência tem provado que a vida nasceu no continente africano!) sofreram, penaram, morreram nas mãos de gentalhas! Quando “acham” que por ser branca, sou racista, me sinto roubada! Na minha obra, minhas raízes vibram! Seja do lado negro e do lado branco, sim! Me sinto empobrecida, pois são as MINHAS RAÍZES e isso ninguém pode me tirar!

Me identifico muito mais com religiões afro, que as ditas (não são todas!) igrejas conservadoras e hipócritas! O que mata o ser humano é tentar colocar tudo e todos no mesmo saco (furado, né!). Tenho um grande amigo negro , que toca Bach, ama música erudita e tem gente que fala para ele que, já que ele é negro, “tem” que tocar samba! Sério, gente!

Foto: Acervo Pessoal

A coluna de hoje está aqui para apoiar todo e qualquer movimento e pessoas que lutam para que o mundo seja um lugar mais justo! E também apoiar artistas, que demoraram demais para serem reconhecidos e reconhecidas! Na medida do possível , a coluna vai trazer essas artistas ( já que o ano é das mulheresss!) para vocês terem a oportunidade de conhecer um pouquinho a obra delas!

Aliás, falando em imagens e em arte, saibam que aquela imagem que deixa Iemanjá branquinha, não é assim, ok? Nossa mãe das águas salgadas é negra! Assim como nossa mãe Aparecida! Estou aqui para falar da minha família e da experiência dessa família, que eu sei que é uma das exceções nesse país racista, homofóbico, machista e outras “istas” insuportáveis! Infelizmente, a maioria nega e renega essas raízes.. Espero um dia, conseguir descobrir de onde, que lugar da África, meus tataravós vieram e ver ao vivo… Sei que de certa forma, vai ser um pouquinho deles voltando para casa…

Minha certeza é que eles vivem nas minhas obras!

Carpe diem e colaborem com nosso querido jornal pelo catarse.me/olondrinense

Angela Diana

Sou londrinense e me dedico à arte desde 1986 quando pisei pela primeira vez no atelier de Leticia Marquez. Fui co-fundadora da Oficina de Arte, em parceria com Mira Benvenuto e atuo nas áreas de pintura, escultura, desenho e orientação de artes para adolescentes e adultos.

Foto: Acervo Pessoal

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