Por Clodomiro Bannwart

.Lá no início dos anos 80, a minha avó, que morava em nossa casa, mantinha um ritual quase sagrado no dia do Senhor. Domingo pela manhã, ela assistia à missa de Dom Eugênio Sales, transmitida pela Globo. À tarde, a atenção era direcionada ao programa do Silvio Santos. Lembro-me que havia durante a programação do famoso apresentador de auditório, a inserção de um quadro intitulado “A semana do Presidente”. Mostravam na telinha os feitos realizados pelo presidente durante a semana. Sempre num tom positivo.

A semana que passou, o Presidente Bolsonaro deu mostras de cenas nada positivas. No lançamento de sua pré-candidatura à reeleição, Bolsonaro disparou: “Por vezes embrulha o estômago jogar dentro das quatro linhas da Constituição”. Típica insinuação golpista, sob o olhar complacente do presidente do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, aquele que fora preso junto a alguns petistas no episódio do Mensalão.

Na segunda-feira, o Ministro da Educação pediu exoneração diante do caso que ficou conhecido como bolsolão do MEC. Mas não foi nada grave, nada que possa ser considerado corrupção. A exoneração se deu porque o ministro foi gravado em áudio no qual comenta um esquema de liberação de recursos do MEC, sob o comando de dois pastores, a pedido do Presidente da República. Nada grave, não é mesmo? A Polícia Federal abriu inquérito para investigar os pastores envolvidos, e a Procuradoria Geral da República solicitou ao STF autorização para investigar a ações do ex-ministro da Educação.

Na quinta-feira, um dia antes do dia da mentira, Bolsonaro voltou a exaltar a ditadura militar e a colocar em dúvida o sistema eleitoral. Novamente o discurso golpista exalou no ar, depois de 58 anos do golpe de 1964. Não bastasse a isso tudo, ele ainda abonou a posição de um deputado que se refugiou nas dependências do Congresso Nacional para se safar de cumprir uma decisão judicial. Enquanto isso, o centrão contabilizava o aumento de sua banca, graças à janela da infidelidade. Afinal, a democracia não está ameaçada. Vamos à farra!

E o tratamento que Bolsonaro dispensou ao Judiciário? É preferível nem registrar suas palavras de baixo calão. Apenas lembrar que “proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo”, de acordo com a Lei do Impeachment, implica em crime de responsabilidade. Mais um na conta do nosso mandatário. Apenas mais um! É preciso de uma calculadora para somar todos os que foram cometidos até aqui.

Domingo é o dia do Senhor. Dia de rezar pela alma da minha avó que já partiu. E acender uma vela por um país que agoniza.

Clodomiro José Bannwart Júnior

Professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina. Coordenador do Curso de Especialização em Filosofia Política e Jurídica da UEL. Membro da Academia de Letras de Londrina.

Foto: Pixabay

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1 comentário

  1. Gostei muito desse texto.
    No caso do Bolsonaro, a Semana do Presidente nem teria o que mostrar de útil e benéfico para o País. Não tem governo, não tem plano de governo. Só escândalos, ofensas, palavrões, impropérios.
    Mas, talvez se tivesse a Semana do Presidente Bolsonaro, quem sabe o impeachment teria acontecido.

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