Querido diário: A nutrição para o corpo e mente!

`Por Clodomiro Bannwart

A idade é como uma mina d’água a jorrar lembranças costuradas no passado. Tenho lembranças da casa do meu nono. Ele, patriarca de prole extensa, sentava-se à mesa e aguardava as refeições preparadas pela nona. Das mãos do nono vinham apenas os assados aos domingos. Ele foi por muitos anos o churrasqueiro das quermesses da paróquia. Tinha gosto apurado para os vinhos tradicionais da época e gostava da boa mesa, desde que fosse preparada pela nona.

Meu pai igualmente desfrutava das mesmas benesses do nono. Em casa, minha mãe era quem preparava as refeições. Ao pai cabia se sentar à mesa e desfrutar da variedade de pratos que a mãe, como a nona, cozinhava.

A minha geração é bem diferente das duas anteriores. Eu e a Michele alternamos o comando da cozinha. Como trabalhamos em home office, ao menos no período da pandemia, temos horários preestabelecidos para iniciar e terminar o preparo dos alimentos. Compactuo com Platão a afirmação de que o corpo nos dá muito trabalho. Precisamos alimentá-lo, colocá-lo para dormir, exercitá-lo, administrar suas dores, enfim, há um custo elevado para garantir a existência num nível compatível de saúde e de bem-estar..

Para nutrir o corpo é imprescindível alimentos saudáveis, o que impõe gastar tempo na cozinha lavando, cortando, picando legumes, temperando, medindo o tempo do cozimento, etc. Algo que dá trabalho, exige tempo e gera, para agravar, uma quantidade interminável de louça. Não fosse tão prejudicial à saúde e enjoativo ao paladar seria preferível matar a fome com miojo. É rápido e prático, porém, destituído de essência nutritiva. Afasta a saciedade, mas não sustenta. Produz o oposto da finalidade pretendida.

Da mesma forma que o corpo requer nutrientes para sua estabilidade, também a mente exige ser alimentada para evitar que o corpo, tão bem cuidado, se transforme em veículo de transporte de um idiota. Como enfatizado por Nietzsche, “talvez eu e meu corpo formemos uma conspiração pelas costas de minha própria mente”.

Alimentar a mente também requer tempo. É preciso devorar livros, exercer o ofício da leitura, ouvir pessoas sábias, ter disposição e humildade para aprender, transmutar palavras em comportamentos e atitudes. Só assim a mente será o “coach” do corpo.

Mesmo assim, muitos preferem alimentar a mente com o miojo pré-aquecido na fervura das redes sociais. Memes, meia dúzia de palavras bombásticas coladas numa montagem, fakenews, teorias da conspiração e tolice a rodo. Tudo isso é devorado, sem qualquer tematização crítica e reflexiva. Como diz um cidadão famoso: “eu não como, eu engulo”. Assim como ele, uma multidão engole a tudo isso cevando a própria estupidez. E, por fim, sem cerimônia, arrota ignorância na cara dos outros, derrubando farinha no chão, é claro! Numa clara demonstração de desnutrição democrática.

Clodomiro José Bannwart Júnior

Professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina. Coordenador do Curso de Especialização em Filosofia Política e Jurídica da UEL. Membro da Academia de Letras de Londrina.

Foto: Pixabay

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