Skip to content

Centrão religioso

Por Clodomiro Bannwart

Desde a vitória do Presidente Lula, no domingo passado, vários eventos ocorreram, incluindo a frustrada tentativa de golpe por uma claque ensandecida, tomada de assalto pelo típico macho alfa bolsonarista e por aquelas pessoas queridas, piedosas e religiosas, crentes de que estavam à frente de quartéis, emboladas numa cruzada espiritual. Essas pessoas, além de marchar sob um patriotismo tosco, flagrantemente criminoso, também se moviam por um forte sentimento religioso.

Rezas, novenas e orações empreendidas antes e durante as eleições não foram capazes de mover a vontade divina na direção daquilo que eles queriam e gostariam. O mito foi derrotado. Só aí já sobram evidências de que Deus parece confiar a política à livre decisão dos homens. Significa, ao que tudo indica, que o Todo Poderoso prefere não intervir. Ou se interveio foi no sentido contrário do esperado. Resta, então, fazer ajustes na biruta teológica. Os ventos sopraram na direção errada. Deus, logo Ele, frustrou expectativas.

Enquanto o generalato das lutas celestiais escolhe os novos versículos bíblicos para realinhar a fé à la carte, a turba que foi alimentada por uma teologia armamentista nos quatro últimos anos, resolve engrossar a cruzada golpista dos caminhoneiros. Vá que Deus mude de ideia e dê uma forcinha para traspassar o inimigo no fio da espada, oh glória! E dá-lhe fake news nos grupos de WhatsApp e Telegram. E a manada partiu para o crime, em Nome de Jesus. Haja coração, diria Galvão Bueno.

“Deus, pátria e família” é o liame neofascista que uniu religião e política. E cada lado produziu o seu centrão: o político e o religioso. O centrão político foi demonizado por Bolsonaro, como mote de sua campanha em 2018. O General Heleno chegou até cantarolar “se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão”. Mas a crítica durou só até Bolsonaro gravar uma live dizendo: “eu sou do centrão, eu nasci lá”.

O centrão, na verdade, deu sustentação para que o governo Bolsonaro chegasse até o final. O pedágio cobrado foi alto: a excrecência do “orçamento secreto”, que já avança, sem pudor, sob a equipe do governo de transição. Talvez a única virtude do centrão político é saber que sua sobrevida depende do regime democrático. O centrão deu fôlego a Bolsonaro, mas soube mantê-lo no seu cercadinho de quatro linhas, cortando os tentáculos golpistas, sempre que necessário. Seus representantes mais destacados não titubearam, terminada a eleição, de reconhecer a vitória do Lula. Eles sabem que sem democracia todos perdem.

Já o centrão religioso – uma massa parda de líderes religiosos ávidos por poder – não tem nenhum compromisso com a democracia. Embarcaram na canoa fascista bolsonarista sem restrição e sem nenhum compromisso com o Estado de Direito. Seus integrantes ajudaram a incensar o mito como se ele fosse o legítimo representante de Deus na disputa política. Fizeram renascer um maniqueísmo rude. Dilapidaram os valores cristãos para sustentar o armamentismo, que, definitivamente, não é uma bandeira de Cristo. Assumiram o papel de filhos pródigos, perderam a sensatez e chafurdaram na lama com os porcos. Apagaram a chama do amor para dar lugar ao ódio.

Até ontem, essa massa acéfala, mantenedora de uma fé caduca, continuava orando pela vitória do campo autoritário e fascista – campo este que confirmou sua essência golpista nestes últimos dias. Se Bolsonaro tivesse vencido as eleições, o centrão religioso estaria firme e forte, incensando com mais avidez ainda a verte autocrática de um ditador fortalecido por rezas e orações.

Se no campo político é preciso lutar para que o centrão político assuma um compromisso republicano na relação entre os poderes constituídos, no campo religioso é fundamental que os líderes religiosos assumam um compromisso com o Estado Democrático de Direito. Uma espécie de compliance religioso. É inadmissível que as Igrejas, que inclusive tem a “graça” da imunidade tributária concedida por parte do Estado brasileiro, façam uso da imunidade da palavra para destruir o Estado de Direito.

É chegada a hora de cobrar responsabilidade social das Igrejas. Responsabilidade das lideranças religiosas que bateram bumbo para o fascismo e, também, daquelas que assumiram a postura de Pilatos: lavaram as mãos diante da tragédia que se projetava a olho nu.

Dessas lideranças, a que que lavou as mãos, que não foi quente nem frio, mas morno, é a mais perniciosa. Esta se vale do cinismo para dizer que a política não importa, que os políticos são todos iguais, que não vale a pena debater política. Ao negar a política e emudecer o debate democrático, corroboram com a manutenção de um silêncio despótico. Pregam a teologia das nuvens, um afável convite para ver a formação imaginária de carneirinhos nas nuvens, enquanto o fascismo entra em nossas casas e sequestra entes queridos para marchar nas fileiras do golpismo.

Clodomiro José Bannwart Júnior

Doutor em Filosofia, professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina. Coordenador do Curso de Especialização em Filosofia Política e Jurídica da UEL. Membro da Academia de Letras de Londrina.

Foto: Pexels

.

Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Designed using Magazine Hoot. Powered by WordPress.