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Aprendendo e reaprendendo

Por Clodomiro Bannwart

As ações humanas abrem possibilidades ilimitadas e produzem experiências surpreendentes na aprendizagem de cada pessoa. Na constância de atividades livremente escolhidas, o ser humano alcança estágios mais elevados de conhecimento, de interação, de linguagem e de moralidade. Pela prática educacional, transformamos a melhor matéria-prima que possuímos, a saber, a nós mesmos. Confúcio afirmava que nascemos iguais e pela prática nos diferenciamos, tornando-nos territórios distintos uns dos outros. A beleza da geografia está na diversidade dos territórios que compõe a paisagem, assim como a grandeza da educação está na capacidade de tocar a vida em suas múltiplas competências.

O ser humano ainda continua sendo um território pouco conhecido. Na verdade, não o conhecemos plenamente. Existem partes desse território que o acesso não é facilitado. Há, em nós, montanhas rochosas que são avistadas de longe, tal como um aviador, atento observador, em voo panorâmico. Querer sobrevoar esse terreno exige minimamente dispor de um mapa nas mãos. Nos dias atuais é mais apropriado falar em GPS. Nem o mapa nem o GPS constituem o território. Ambos são traçados possíveis que nos conduzem ao encontro de nós mesmos. São instrumentos a orientar nossas ações no processo de desbravar aquilo que somos, com o intuito de (re) construir o que gostaríamos de ser. Os mapas pedagógicos orientam-nos a alcançar a nós mesmos, ajudando-nos a desnudar nosso ser, fazendo-nos territórios conhecidos e abertos a outras plagas.

A Educação não se restringe à formação profissional; deve, antes, formar o ser humano na sua integralidade, permitindo a cada um, em particular, descobrir o melhor de si, os seus dons mais íntegros. Semelhante às linhas de um mapa, a educação forma as linhas do desenvolvimento do ser humano. Em nossa viagem existencial, vislumbramos várias paisagens e, a cada novo cenário, a cada novo horizonte, temos uma percepção diferente da realidade que nos cerca. As paisagens são os estágios ou níveis do nosso desenvolvimento pessoal. A cada novo horizonte que se abre, temos um nível mais elevado que transcende e inclui as paisagens anteriores.

O filósofo norte-americano Ken Wilber afirma que “numa hierarquia de crescimento, os níveis mais elevados não oprimem os menos elevados, mas os abarcam! Eles literalmente os incluem, os abrangem. Cada nível de uma hierarquia de crescimento está disposto num arco superior, porque representa um aumento da capacidade de consideração pelos outros, da consciência, da cognição, da moral. Crescimento é um desenvolvimento que é inclusão” (WILBER, 2012, p.116). Desenvolvimento é envolvimento do eu para consigo e para com o outro. É o envolvimento pedagógico e integral para com todas as áreas que tocam a vida em suas múltiplas paisagens.

É nesse sentido que a pedagogia se vale de várias áreas do conhecimento para delinear um mapa formativo do ser humano, pleno e integral. Apoiado na psicologia, por exemplo, é possível inferir que a criança, na infância, vivenciou paisagens destituídas de valores éticos ou convenções sociais, um período, por assim dizer, egocêntrico, alicerçado no “Eu”. Ao assimilar as regras e as normas da cultura e da sociedade a que pertencem, homens e mulheres abandonam o egocentrismo e passam para o nível etnocêntrico, no qual constroem a noção de justo e de correto a partir do horizonte dos valores, dos costumes e das tradições partilhados comumente. As paisagens, agora, são alicerçadas com base no “nós”. A educação eficaz é aquela que ajuda o sujeito a enxergar outros territórios além daquele em que a sua identidade foi formatada. Trata-se de alçar o nível pós-convencional, também chamado de mundicêntrico, em que o indivíduo passa a enxergar todas as pessoas, todos os territórios, “todos nós”, independente de raça, cor, sexo, credo e valores culturais.

Educação é um processo pedagógico que visa à inclusão do Eu ao Nós e do Nós ao Todos Nós. E esse processo exige uma ação permanente de reconstrução, tal como o GPS que nos reposiciona e nos redireciona a cada novo conhecimento assimilado.

Clodomiro José Bannwart Júnior

Professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina. Coordenador do Curso de Especialização em Filosofia Política e Jurídica da UEL. Membro da Academia de Letras de Londrina.

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