Pequeno desabafo irônico e antirracista

É cansativo toda vez ter que explicar os motivos que justificam a luta por inclusão social, respeito, representatividade e dignidade

Por Viviane Alexandrino

A coluna da semana abordará uma questão vivenciada por mim durante o feriado de Carnaval, com o objetivo de contribuir com reflexões a respeito da inserção do povo negro em sociedade. E tem vezes que buscamos nosso direito em situações das mais simples e corriqueiras.

Faço questão, nesta semana, de contar uma experiência vivida nas últimas semanas, para mostrar duas situações: a primeira, que o racismo se manifesta nas falas mais sutis do nosso cotidiano. Além disso, em segundo lugar, que a mulher branca, em uma representação significativa, incomoda-se com o protagonismo negro, seja por questões involuntárias, seja por momentos em que há uma ação realizada de propósito.

E já quero começar afirmando que estou cansada! Sim, estou exausta, pois não é possível tanta gente sem noção presente no meio social, sem ao menos se importar com as lutas e anseios de seu próximo.

Sério, eu tenho vontade de encaminhar esse pessoal para uma booooaa biblioteca, para participar de palestras formativas, indicar para ouvir um credível podcast, conversar com uma pessoa negra atuante na causa e por aí vai… É inacreditável a quantidade de impropérios que uma “galera” aí anda falando, escrevendo em rede social.

Quando paro para pensar, tenho a sensação disso – o que vou relatar agora – de ser um fato daquela página intitulada Sensacionalista. A revolta é tão grande, pois tenho vontade de escrever e compor o Pequeno Manual Deseducado Contra Racista, fazendo uma releitura livre e irônica do clássico Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro.

Vamos aos fatos.  Amo Carnaval. Tudo do carnaval me deixa feliz: as cores, as músicas, as fantasias, as danças, os sambas entoados. E eu não sei se as pessoas sabem – vulgo algumas mulheres brancas – que a cidade de Londrina é um lugar de clima tropical. Logo, as pessoas saem às ruas vestindo roupas leves, apropriadas, shorts, croppeds para reagir, chinelo de dedo, entre outros acessórios.

Eu e minhas amigas escolhemos um lugar com ótima música ao ar livre e com samba de roda. E, assim, sou uma mulher negra que sabe sambar, menina! Tem que ver!

Perceba que irônico. A sociedade passou a vida toda me chamando de Globeleza, dando ao meu corpo negro apenas um viés sexualizado – achando que estão fazendo um baita elogio – e quando eu resolvo “bancar a Globeleza”, dançando e girando como acontecia nas vinhetas de Carnaval da Rede Globo, uma representante da branquitude se sente incomodadíssima, afinal, o chamar a atenção sempre deve acontecer com mulheres brancas.

O protagonismo de uma vida repleta de privilégios não pode ser dividido, nem mesmo em um espaço histórico, cultural, artístico e legitimado do povo negro.  E a fiscal de Valéria Valenssa não aceitou que não fosse ela a chamar a atenção: direcionou-me olhares reprovadores, “carões” dignos de séries da Netflix, tentativas frustradas de me fazer parar, até que ela solta “fica difícil competir com essa negona, viu”.

Confesso que foi preciso muita sobriedade, paciência para não resolver aquela situação com uma caixa de fósforo. “Nossa, agora tudo é racismo?”. Sim, é. A questão é que, agora, parte do povo negro engaja-se na pauta racial, teoriza, denuncia, explica e explica e explica de novo as nuances do racismo. Já dizia Macunaíma: “Ai, que preguiça!”. Aproveito para dar uma dica: não vão bancar aquele youtuber brasileiro, que recentemente, soltou a seguinte pérola “opinião racista é crime?”.

“Nossa, agora não pode falar nada que tudo é racismo”. Não pode, não. Coisa néscia, que machuca o outro e pode ser crime, não é para falar!  “O mundo tá chato”. Tá mesmo, para quem vive sendo vítima do racismo e tendo sua liberdade pessoal ferida, impedida e deslegitimada.  

Afinal de contas, o que você fez com a moça, Viviane? Esta maravilhosa mulher negra respirou, pensou e, no dia seguinte, comentou com uma amiga da pessoa em questão, avisando-lhe que, em momento futuro, se tal ocorrência se repetir, será preciso uma conversa bemmmmmm assertiva.

Além disso, usei toda a minha didática enquanto professora, para explicar os motivos de tal fala ser inapropriada, porque um fato é certo: se você é vítima de falas racistas e não explica pedagogicamente o porquê está errado, meu Deus, você ainda é o errado. Isso cansa!

Que tenhamos fé e Axé. Boa semana!

Viviane Alexandrino

Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.

Foto: Pexels

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