Paixão de Cristo: Momento para muitas reflexões, inclusive raciais

Nesta semana, peguei-me pensando na pessoa de Cristo. Lembrei-me de seus ensinamentos de amor, respeito e equidade, e que, infelizmente, a sociedade tem feito a seu bel-prazer.

Por Viviane Alexandrino

Uma lembrança feliz que tenho da infância tem como pano de fundo um clássico do cinema brasileiro: o filme O Auto da Compadecida.  O motivo? Uma das poucas vezes em que vi Jesus sendo representado por uma pessoa negra, algo diferente do que se via em filmes de Hollywood, quadros, revistas e fotos, por exemplo. Para uma criança negra, e que vivia em um lar cristão, assistir a um filme em que o Salvador era negro, meu Deus, foi o apogeu, senti-me acarinhada. Hoje, esse conforto ganhou o nome de representatividade.

E à medida em que os anos iam se passando e meu senso crítico se ampliando, o fato de Jesus continuar representando pela visão eurocêntrica, passou a me provocar sérias reflexões. Embora seja um mistério a real fisionomia de Cristo e que a Bíblia também não traga informações assertivas a respeito disso, é importante que façamos um exercício de análise: lembremo-nos da região em que Jesus viveu, caminhou, pregou o evangelho de amor e misericórdia, como são as pessoas que lá viveram – e ainda vivem – e pensemos: afinal, com esses indícios históricos e étnicos, como seria a aparência de Jesus?  Há indícios de historiadores e cientistas que afirmam que o Salvador não era loiro.

No ano de 2001, um documentário produzido pela rede BBC, mostrou uma reconstituição do rosto de Jesus por meio de indícios deixados pelo Santo Sudário, uma espécie de peça de linho que teria envolvido o corpo de Cristo após sua morte e que teria deixado marcas de seu corpo. Nesse material de cunho forense, e com a utilização de recursos científicos, chegou-se a algo estipulado como a face de Jesus: um homem de uma estatura de aproximadamente 1,60, cabelos volumosos e pele escura.

Acredita-se que a representação de Jesus humano, loiro e cabeludo surgiu durante o auge do Império Bizantino, ou seja, para demonstrar poder e invencibilidade, retratou-se Jesus com essa aparência física, algo que se aproximava dos reis e imperadores do período. Mas, pelos escritos sagrados, sabe-se que Jesus não veio para os poderosos e fortes:  Ele veio para os fracos, miseráveis de posses e espírito, os que estão à margem da sociedade e que costumam receber xingamentos e olhares tortos. Ele veio para pregar o amor e o respeito, elementos tão faltantes em nossos tempos.

Quando o assunto da real fisionomia humana de Jesus vem à tona em debates, a sociedade se incomoda, rebate e parece se sentir desconfortável, ainda que exista indícios históricos apontando para um Jesus não branco. A pergunta reflexiva é: Por que incomoda tanto Jesus, potencialmente, ter sido um homem não branco?      

Pensemos, pois, a partir do momento em que deixamos de lado Seus ensinamentos, principalmente aquele em que é dito que é preciso amar a TODOS sem distinção, estamos exercendo um cristianismo de conveniência, de aparência, de bolha, de “eu acho”, “mas na minha opinião” e sem os princípios regimentares deixados pelo exemplo máximo de entrega e amor ao próximo. Uma feliz Páscoa a todos!  

Foto: O Auto da Compadecida/Divulgação

Viviane Alexandrino

Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.

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