Os tempos obtusos serviram como vacina

Por Clodomiro Bannwart

Querido diário!

Quem nasceu na década de 1970, no auge da ditadura militar, guarda registros na memória de uma época difícil, como a noite escura de um domingo para segunda, em que a família de Jesiel foi acordada por policiais arrombando a porta da casa à procura de bandidos. A mãe grávida, aos prantos, guardava o irmão menor no colo. Jesiel agarrava-se às pernas do pai. A avó, coitada, tateava no escuro a procura dos seus óculos. Uma confusão só! Mandado judicial nem pensar.

O pai de Jesiel, estoico, tentava explicar aos policiais que não havia bandidos ali, apenas uma pacata família assustada com tamanha brutalidade. Um dos policiais segurava nas mãos o trinco da porta arrancado a fórceps. Na rua, vários policiais armados apontavam na direção da pequena família. Uma voz vazada pelo rádio da viatura informa que eles estavam em endereço errado. A casa azul de Jesiel não era a mesma casa azul que eles procuravam. Partiram sem nenhum pedido de desculpas. Marcharam com a mesma truculência com que haviam chegado. Recorrer a quem? Fazer um B.O na delegacia? Protestar contra o Estado? Mas como, se a atitude dos policiais, naquela época, era legitimada pelo próprio Estado?

Nas eleições de 1982, a família inteira de Jesiel foi votar: pai, mãe e vó. No lugar de votação havia tantos policiais que, boca miúda, comentava-se que o pai de Jesiel e alguns outros seriam presos porque haviam decidido votar na oposição. Demorou tempo para que Jesiel dissociasse eleições de polícia. Foram tempos obtusos que serviram como vacina, um antídoto para Jesiel nunca mais querer sua volta.

O Brasil dos anos 80 derrotou a ditadura. Uma década depois, nos anos 90, o país conseguiu vencer a inflação. Levou mais uma década para fazer distribuição de renda, isso nos primeiros anos de 2000. Esperava-se que o Brasil continuasse avançando nas décadas seguintes. Infelizmente, isso não aconteceu.

Hoje, a miséria voltou a reinar e a fome se impõe sobre uma parcela considerável da população. A inflação recobrou sua força. É como se o país retornasse aos anos 80. Jesiel se sente contemporâneo dos fiscais do Sarney toda vez que entra no supermercado ou abastece o carro. E uma coisa que Jesiel não entende é o motivo que leva uma parcela do eleitorado a desejar o retorno às noites escuras da história.

Millôr Fernandes, além de grande escritor, parece ter se feito profeta ao dizer que “o Brasil tem um enorme passado pela frente”. Jesiel concorda com o acertado vaticínio.

Clodomiro José Bannwart Júnior

Professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina. Coordenador do Curso de Especialização em Filosofia Política e Jurídica da UEL. Membro da Academia de Letras de Londrina.

Foto: Memorial da Democracia

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