Os haters podem ter algum transtorno psicológico ou psiquiátrico?

Por Alessandra Diehl e Rogério Bosso (*)

De acordo com uma visão amplamente difundida na mídia e no discurso público em geral, o ódio on-line advindo dos chamados haters é um problema social em escala global. No entanto, dado ao impacto deste crescente fenômeno, muitos de nós ficamos a nos perguntar se atrás de um hater existe uma pessoa com algum transtorno psiquiátrico ou, pelo menos, com alguns traços de personalidade que pudessem de alguma forma trazer luz a um fenômeno tão complexo e multifacetado como este. O que sabemos, na verdade, é que tem havido pouca literatura científica sobre o assunto e, até onde sabemos, não há sequer uma definição acadêmica estabelecida sobre o ódio on-line e os haters on-line.

Os haters são pessoas que utilizam da internet para destilar seu ódio, através de práticas como bullying virtual ou depreciação. Eles praticam uma forma de agressão on-line contra uma pessoa ou um grupo com base em raça, etnia, nacionalidade, orientação sexual, gênero, religião, deficiência ou até mesmo questões políticas. Estas, por sua vez, têm gerado debates on-line frequentemente caracterizados por extrema polarização e discussões acaloradas entre os usuários. A presença do discurso de ódio on-line está se tornando cada vez mais problemática, tornando necessário o desenvolvimento de contramedidas apropriadas devido aos possíveis impactos deste tipo de discurso na vida das pessoas, principalmente, os mais vulneráveis como os adolescentes. As redes sociais têm aproximado as pessoas, sejam elas pessoas leigas ou artistas e seus fãs. Mas, entre essas pessoas, os haters também estão lá.

Perfil psicológico dos haters

Um estudo realizou a detecção de discurso de ódio em um corpus de mais de um milhão de comentários em vídeos do YouTube por meio de um modelo de aprendizado de máquina, treinado e ajustado em um grande conjunto de dados anotados à mão. Esta análise mostrou que não há evidências da presença de “puros haters“, entendidos como usuários ativos que postam comentários exclusivamente de ódio.

No entanto, outros autores que conduziram pesquisas com pessoas que se auto definiram como haters mostram que os mesmos possuem altas pontuações na subescala de transtorno de personalidade antissocial e inveja e, que esses traços específicos foram preditores significativos no comportamento de postar comentários de ódio na internet. Outros fatores de personalidade, tais como os chamados “Dark Tetrad” (maquiavelismo, narcisismo e sadismo) também estão relacionados a uma maior possibilidade de ter um comportamento de hater on- line ou ainda de realizar trollagem on-line. O comportamento de trollagem on-line pode se correlacionar positivamente com sadismo, psicopatia e maquiavelismo, e negativamente correlacionado com amabilidade, consciência e honestidade-humildade. Haters se alimentam da vulnerabilidade emocional das pessoas. A fragilidade emocional é um “prato cheio” para eles.

Haters no universo do adolescente

Adolescentes cibervítimas e os cyberbullies têm mais problemas emocionais e psicossomáticos, dificuldades sociais e tem mais queixas de não se sentirem seguros e cuidados na escola. O cyberbullying foi associado a sintomas depressivos moderados a graves, uso de substâncias, ideação e tentativas de suicídio. Estudos empíricos e alguns casos anedóticos de alto perfil demonstraram uma ligação entre ideação suicida e experiências com vitimização ou ofensa por bullying.

A agressão de pares de adolescentes deve ser levada a sério tanto na escola quanto em casa, e sugerem que um componente de prevenção e intervenção do suicídio é essencial nos programas abrangentes de resposta ao bullying implementados nas escolas.

Prevenção e “etiqueta” on-line são possíveis?

Os profissionais de saúde devem estar atentos à natureza violenta das interações que ocorrem no ambiente virtual e seus malefícios à saúde mental, principalmente entre os adolescentes. Conhecer, entender e analisar a etiqueta on-line através de ética e educação são necessidades em uma sociedade em que as tecnologias de informação e comunicação mudaram a forma de socializar e comunicar. Uma nova realidade em que há cyberbullying, golpes digitais, fake news e haters nas redes sociais.

(*) Alessandra Diehl – É psiquiatra em Londrina e atual presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD). Rogério Bosso – É psicólogo em Campinas e coordenador do curso de Psicologia da Faculdade Anhanguera de Campinas – Taquaral.

Foto: VisualHunt

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1 comentário

  1. Excelentes apontamentos sobre um tema tão atual e obscuro que deveria ser destaque nas escolas e discutido pelas famílias.
    Parabéns!!

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