Os inimigos da folia: álcool, lança-perfume e ecstasy podem transformar o Carnaval em pesadelo

Ecstasy

Alessandra Diehl, psiquiatra especialista em dependência química

O carnaval é o evento festivo com maior associação ao uso de substâncias. As cervejarias, inclusive, são as grandes patrocinadoras da festa popular e induzem ainda mais o público a consumir bebidas alcoólicas nesta ocasião.

Sem dúvida, o álcool é o grande vilão do Carnaval. Como a folia dura quatro dias, as pessoas tendem a beber – sem intervalos – durante todo esse período. Principalmente em festas como essa, a sociedade, em geral, costuma encarar o uso de substâncias tóxicas ao organismo como algo recreativo.

Nesse momento, mesmos aqueles que não têm costume de beber, acabam fazendo por influência dos amigos, principalmente. Não podemos negar: ocorre um tipo de pressão social para o consumo de álcool e outras drogas durante o Carnaval. Além disso, a falsa sensação de prazer e relaxamento, proporcionada pelos “porres”, é mais um fator que leva a pessoa a querer aumentar o consumo, o que acaba tendo efeitos negativos para si e para os outros.

O uso abusivo de bebidas no Carnaval é perigoso porque, geralmente, o indivíduo experimenta sensações prazerosas. E o que era para ser mais uma brincadeira festiva no feriado pode virar rotina: as pessoas ficam mais propensas a repetir esse hábito e a buscar por mais prazer. As consequências são inúmeras e uma delas é o encurtamento do caminho para a dependência do álcool e outras drogas. Sob o efeito da bebida, o nível de julgamento é alterado e as pessoas se sentem seguras para consumir outras substâncias. Como todos sabem, a bebida alcoólica é a porta de entrada para as drogas ilícitas como a maconha e cocaína, por exemplo.

Quando falamos em Carnaval, outra droga vem em nossa mente é o lança-perfume. Inalável, leva em sua composição cloreto de etila, clorofórmio e alguma essência aromática. O efeito, como o entorpecimento, é parecido com o do álcool. O lança causa ainda euforia e confusão mental. Era usado livremente no carnaval de todo o país nos anos 20. A substância era borrifada à esmo para os foliões, “perfumando-os” e fornecendo sensações agradáveis.

O que muitos foliões não sabem é que essa droga é absorvida pela mucosa pulmonar e seus componentes são transportados, via corrente sanguínea, aos rins, fígado e sistema nervoso. O lança ainda libera adrenalina no organismo, acelera a frequência cardíaca, proporcionando sensação de euforia e desinibição ao mesmo tempo. Promove ainda perturbações auditivas e visuais, perda de autocontrole e visão confusa.

Outro perigo do lança-perfume é que seus efeitos são rápidos e, por essa razão, os usuários tendem a inalá-lo diversas vezes, potencializando a ação de seus compostos sobre o organismo. Desse modo, o uso abusivo pode desencadear em quadros mais sérios, como falta de ar, desmaios, alucinações, convulsões, paradas cardíacas e até morte. Além disso, por alterar a consciência do indivíduo, permite com que este esteja mais vulnerável a acidentes – assim como acontece com o excesso do álcool.

Logo, as autoridades perceberam que a brincadeira com lança-perfume excedeu os limites no Carnaval e que a substância não era inofensiva, por isso, foi proibido. No entanto, sabemos que o comércio ilegal dessa e de outras drogas ilícitas corre livremente nas passarelas do samba espalhadas pelo Brasil. O ecstasy, por exemplo, é mais um “hit” do Carnaval.

Essa é uma droga sintética, fabricada em laboratório, a partir de componentes não naturais. O nome técnico do ecstasy é MDMA (metilenodioximetanfetamina). Essa substância é conhecida como “droga do amor”, porque aumenta a percepção de cores e sons, e também amplifica as sensações táteis durante o sexo. Trocando em miúdos, sua ação estimulante aumenta a temperatura corporal e a sensibilidade ao toque. No entanto, seu uso combinado ao álcool, algo que é bem comum nos blocos de Carnaval, é um tiro no escuro para usuários e médicos: não se sabe a composição exata da droga, o que complica atendimento em prontos-socorros.

Aliás, a possibilidade de interações indesejadas entre substâncias é o grande risco associado ao uso. A combinação de duas ou mais já é o suficiente para alguma interação indesejada. Um exemplo bem simples é a associação do álcool + bebidas energéticas, que é bem comum entre os jovens. Nessa combinação temos um depressor junto com um estimulante que, respectivamente, darão efeitos opostos, no entanto não excludentes.

Mais um exemplo é o consumo da Bala” (ecstasy) + cocaína ou outro estimulante. Juntas, aumentam o risco de taquicardia e hipertensão em indivíduos inexperientes e pode ser fatal.

Mas como prevenir todos esses problemas derivados do uso de substâncias nesses quatro dias de folia? A redução de danos pode começar em casa e na escola, por meio da educação. A informação é uma ferramenta eficaz para a prevenção. Todos esses assuntos devem ser pauta de conversas constante, no ambiente familiar, escolar e até na publicidade, que deveria ser feita pelas autoridades competentes na área da saúde.

É preciso bater na tecla, de forma incansável, para mostrar para nossa população que o consumo de drogas pode ser fatal. Vale a pena arriscar a vida em troca de minutos de euforia e ilusão? Cuidar de si e cuidar dos outros é uma máxima para todos que desejam aproveitar o Carnaval de forma saudável, sem riscos de complicações.

Foto: Pixabay

Alessandra Diehl, psiquiatra especialista em dependência química

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