O ataque ao “politicamente correto”

pexels-anna-shvets-4672717

Por Wilson Moreira, policial penal, cientista social e poeta em Londrina

Um anúncio de um jornal paranaense em busca de assinantes diz que “Não cederá ao politicamente correto”. O termo “politicamente correto” tem sido atribuído por parte dos setores conservadores da sociedade a comportamentos que faz parte de um plano global de domínio da esquerda progressista. Como diz Adolfo Sachsida, em artigo do Instituto Liberal, republicado por Rodrigo Constantino na Gazeta do Povo de 26/12/2016: “A rigor, o politicamente correto é uma forma de se limitar o debate e a livre circulação de ideias em uma sociedade. Pior do que isso, o politicamente correto busca a implementação de uma agenda progressista numa sociedade que, de outra maneira, não aceitaria tal agenda.”

A pesquisadora da Universidade de Harvard Moira Weigel atualmente prepara um livro sobre o termo “politicamente correto’ e recentemente ela escreveu “Um álibi para o autoritarismo”, artigo publicado na última edição da Serrote, a revista de ensaios do Instituto Moreira Salles (IMS). A pesquisadora de Harvard detalha como a linguagem é parte fundamental da conexão que Trump estabeleceu com seus seguidores e como o termo “politicamente correto” tem fundamentado o pensamento autoritário.

Segundo a autora o termo era usado como uma espécie de brincadeira pelos membros do New Left [movimento de esquerda nos EUA nos anos 50], para irritar aqueles que eram tidos como virtuosos ou dogmáticos demais. No início dos anos 90, nós vemos de repente um número grande de artigos de jornais e revistas sobre universidades, afirmando que havia restrições no que os estudantes podiam dizer, algo mais próximo ao sentido que damos ao politicamente correto atualmente.

A narrativa contra o politicamente correto tem um papel muito importante na deslegitimação de universidades e da imprensa tradicional nos Estados Unidos. Essa narrativa passa uma ideia de que existe um pequeno grupo, formado por professores e pela própria imprensa, que está forçando essas mudanças de cima para baixo, às custas das “pessoas comuns”. É uma narrativa que a direita usa para manter o poder em meio às mudanças demográficas e culturais.  Nós estamos vendo versões desses impulsos por toda a parte e principalmente no Brasil.

O termo “politicamente correto” é uma invenção a que os conservadores extremistas se agarram, justamente para desqualificar a tolerância, o respeito e o direito que setores da sociedade reivindicam há muito tempo. Combater o politicamente correto é contrário à democracia porque tenta deslegitimar direitos em todos os níveis. Como princípio essa turma defende a “liberdade de expressão” para agredir grupos e ideias diversas das suas.

Para Gilberto Dimeinstain o politicamente correto é simplesmente “respeitar o direito das pessoas de serem respeitadas.” Esse o princípio democrático da convivência democrática. Aceitar as mudanças na dinâmica social é crer no amadurecimento da sociedade, o contrário é estimular preconceitos contra gays, nordestinos, negros, mulheres, pessoas com deficiência, obesos, evangélicos, judeus, umbandista, etc. A consequência da discriminação é a violência.

O mesmo jornal que ataca o “politicamente correto” e, em consequência, a democracia, diz em outro anúncio que é contra a ditadura. É isso, um jornal politicamente incorreto.

Foto: Anna Shvets no Pexels

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse