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Mansplaining e manterrupting: não faça isso!

As duas são práticas do machismo para calar a mulher, mesmo que ela seja especialista no assunto

Telma Elorza

O LONDRINENSE

Dias atrás, eu compartilhei no story do meu Instagram um post sobre um caso nível hard de mansplaining, onde o cara questionou o uso do coletor menstrual pela dificuldade de ter que tirá-lo cada vez que a mulher precisasse fazer xixi. Ele mandou a mulher estudar, quando ela disse que o xixi saia por outro buraco. Ou seja, além de um conhecimento totalmente errôneo sobre o corpo feminino, o macho palestrinha ainda desqualificou o conhecimento da mulher sobre o próprio corpo. Tudo bem, seria um story para revirar os olhos de todo mundo que o lesse. Se não fosse um seguidor vir no meu direct me questionar porque eu estaria tentando passar uma imagem falsa sobre o corpo feminino já que a genitália feminina só teria mesmo um buraco, pela “grande” experiência dele. O que? Sim, isso mesmo. Ele, como grande conhecedor de mulheres, expert em sexo oral, nunca tinha visto outro buraco, além da vagina e, claro, ânus.

Ilustração: @lela.brandao

Aí eu fiquei pensando sobre mansplaining e manterrupting, duas práticas comuns que as mulheres são submetidas no seu dia a dia. E são também duas formas de violência. O mansplaining acontece quando o homem explica coisas óbvias para mulheres – muitas vezes em um tom de voz de quem está falando com uma pessoa de QI baixo – , como menstruação, gravidez ou qualquer outro assunto que a mulher domine, trabalhe ou estude muito. Eu já vi uma doutora em comunicação organizacional ser vítima de mansplaining por um cara que nunca estudou comunicação, muito menos administração, mas afirmava paternalisticamente que seu planejamento de comunicação para uma empresa estava errado. Já o manterrupting é quando o homem (ou até outra mulher) interrompe a fala da mulher e desvia o assunto ou faz mansplaining. Os dois comportamentos podem ou não andar juntos, mas são comuns em todas as áreas e meios – no trabalho, na vida acadêmica, no vida familiar ou até numa relação amorosa.

Até a ex-chefe de operação do Meta (antigo Facebook) Sheryl Sandberg foi vítima e explicou isso em um artigo do jornal The New York Times, em 2015. “Quando uma mulher fala num ambiente profissional, ela caminha na corda bamba. Ou ela mal é ouvida ou ela é considerada muito agressiva. Quando um homem diz exatamente a mesma coisa, seus colegas apreciam a boa ideia”, escreveu. reflete a crença de que as mulheres valem socialmente menos do que os homens, e assim também suas vozes.

E por que isso acontece? Segundo um artigo da Harvard Business Review, escrito pela professora da Harvard Business School Francesca Gino, os motivos são os preconceitos inconscientes sobre gênero, como a tendência de ver homens como líderes e mulheres como subordinadas. Ou seja: o machismo arraigado, que acaba por silenciar a maioria das mulheres. Silêncio que às vezes vem pela surpresa, às vezes pela incredulidade de estar escutando tanta besteiras, às vezes simplesmente por não querer fazer uma “cena”, discutindo.

As práticas que já são comuns nos ambientes reais, pioraram com as redes sociais. É um um novo tipo de mansplaining, o virtual – como o que eu recebi no direct, uma nova forma de nos interromper e calar. O filósofo, romancista e estudioso da comunicação italiano Umberto Eco disse, pouco antes de morrer, em 2016:  “As redes sociais deram o direito à palavra a legiões de imbecis que, antes, só falavam nos bares, após um copo de vinho e não causavam nenhum mal para a coletividade”.

E, só para esclarecer os palestrinhas de plantão, a genitália feminina tem, pelo menos, seis buracos (às vezes até mais):

  • Meato uretral: por onde sai a urina;
  • Introito vaginal: a entrada da vagina por onde sai a menstruação e os bebês;
  • Glândulas parauretrais ou glândulas de Skene: são as glândulas que soltam o líquido da chamada ejaculação feminina, com dois buraquinhos minúsculos ao lado da uretra.
  • Glândulas de Bartholin – duas glândulas, também com aberturas minúsculas, uma de cada lado da da entrada vagina, responsáveis pela secreção do líquido lubrificante quando a mulher fica excitada nas relações sexuais.

Foto: Pexels

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1 comentário

  1. Como é importante falar disso! E como é difícil percebê-lo no dia a dia! Semana passada deixei de assistir um vídeo no youtube sobre aplicações financeiras pois a apresentadora não tinha me passado credibilidade apenas pela imagem, sem assistir, só depois me dei conta de que minha decisão se deu por ser uma mulher, minha cabeça pensa que economista são homens… que raiva fiquei de mim! Voltei e assisti um excelente vídeo.

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