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Educação sexual baseada em abstinência é furada!

Por Alessandra Diehl

Conversando com uma amiga, esta semana, sobre os bate-papos sobre sexualidade que ela vêm tendo com o seu filho de 19 anos que está namorando uma garota de 16 anos, dei-me conta de como a educação sexual (quer seja escolar ou feita pela família) continua a ser controversa e atolada de moralismos inúteis e questões políticas contraproducentes, as quais só aumentam as lacunas no conteúdo e nas competências que as crianças e adolescentes deveriam estar recebendo sobre saúde sexual e sexualidade.

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Esta minha amiga tem orientado o filho a usar camisinha e a namorada do seu filho a ir ao ginecologista e poder conversar com seu médico sobre anticoncepção para estarem preparados quando decidirem a ter a primeira relação sexual juntos. Sim, ao que tudo indica ambos são ainda virgens! No entanto, ela tem recebido críticas de alguns familiares e colegas da igreja dizendo que ao conversar com seu filho desta forma ela estaria “incentivando” o jovem casal a transar. Quando, segundo seus críticos, ela deveria estar conversando com eles sobre a abstinência sexual até o casamento.

Bem, vejamos!

Cenário Brasileiro

Dados provenientes da Pesquisa Nacional em Escolares (PeNSE) mais recente mostra que a famosa “primeira vez” no Brasil já tinham acontecido para 36,6% dos adolescentes e que, entre estes, a média de iniciação sexual ocorreu quando tinham 13 anos ou menos. A pesquisa apontou, ainda, que, nessa faixa de idade (13 anos ou menos), os mais precoces foram os meninos (44,7%) e os estudantes da rede pública (37,4%).

O percentual de estudantes que revelou ter usado camisinha ou preservativo na primeira relação sexual foi de 63,3%, em 2019, sendo a maior parte composta por meninas (66,1%) e escolares da rede privada (66,0%). Já na última vez que se relacionaram sexualmente, 59,1% dos estudantes usaram preservativo; o que demonstra que parte deles deixou de usar preservativos nas relações sexuais.

A pílula anticoncepcional foi o método contraceptivo mais utilizado pelos escolares (52,6%). Em segundo lugar, está a pílula do dia seguinte, com 17,3% de utilização pelos adolescentes entrevistados. A PeNSE 2019 revelou que 45,5% das meninas de 13 a 17 anos que já tiveram relação sexual fizeram uso da pílula do dia seguinte ao menos uma vez na vida. 

Em resumo, os adolescentes brasileiros estão iniciando a vida sexual cada vez mais cedo e estão se protegendo menos contra as  Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e a gravidez precoce. Os desafios da saúde sexual e reprodutiva dos adolescentes são uma preocupação global para a saúde pública e a educação em saúde sexual e reprodutiva de boa qualidade tem um papel importante a desempenhar na abordagem destes resultados negativos para a saúde sexual. Assim, pais acordem! Uma hora ou outra eles vão transar de qualquer jeito! Não falar é bem pior !

Pesquisa mostra que a média de idade da iniciação sexula entre os adolescentes está nos 13 anos. Mesmo assim, insistem em basear a educação sexual na abstinência sexual, subtraindo informações que podem ajudar a preservar vidas.

Educação sexual baseada na abstinência somente não funciona!

A controvérsia sobre a educação sexual tem continuado ao longo da última década em vários lugares do mundo, inclusive aqui no Brasil, a despeito das evidências crescentes de que a educação sexual abrangente promove eficazmente a saúde sexual e de que os pais apoiam estes programas nas escolas públicas de vários lugares do mundo.

A abstinência de relações sexuais é uma estratégia comportamental importante para prevenir o vírus da imunodeficiência humana (HIV), outras ISTs e a gravidez entre adolescentes. Muitos adolescentes, incluindo a maioria dos mais jovens, não iniciaram relações sexuais e muitos adolescentes e jovens adultos sexualmente experientes permanecem abstinentes durante vários períodos de tempo. Há um amplo apoio à abstinência como uma parte necessária e apropriada da educação sexual. A controvérsia surge quando a abstinência é fornecida aos adolescentes como uma única escolha e quando a informação sobre saúde e sobre outras escolhas ou modalidades de prevenção é restrita ou deturpada.

Embora a abstinência seja teoricamente totalmente eficaz, na prática ela muitas vezes não protege contra a gravidez e as IST. Vamos ser realistas que na prática ela não funciona! Poucos jovens permanecem abstinentes até o casamento; muitos não se casam ou não podem se casar, e a maioria inicia relações sexuais e outros comportamentos sexuais quando adolescentes. Embora a abstinência seja uma opção comportamental saudável para os adolescentes, sendo a única opção para os adolescentes é científica e eticamente problemática.

Em vários lugares do mundo, e principalmente nos Estados Unidos da América a ênfase em programas e políticas baseados apenas na abstinência sexual parece estar minando uma educação sexual mais abrangente e outros programas patrocinados pelo governo americano que gasta mais de 175 milhões de dólares anualmente em programas de “abstinência apenas até o casamento”. Estes programas são obrigados a reter informações sobre contracepção e uso de preservativos, por exemplo. Estudos mostram que os currículos baseados apenas na abstinência contêm informações cientificamente imprecisas, distorcendo dados sobre tópicos como a eficácia do preservativo e promovendo estereótipos de gênero. Avaliações independentes deste tipo de programa sexual encontraram poucas evidências de eficácia e de possíveis danos.

Precisamos de programas de educação sexual abrangentes

Programas de educação baseados apenas na abstinência são moralmente problemáticos, ao reterem informações e promoverem opiniões questionáveis e imprecisas. Os programas exclusivamente de abstinência ameaçam os direitos humanos fundamentais à saúde, à informação e à vida sobre questões importantes ligadas ao HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, sobre consentimento, sobre relacionamento amoroso, sobre violência e respeito a diversidade e as diferenças de gênero.

As políticas exclusivamente de abstinência violam os direitos humanos dos adolescentes, porque retêm informações potencialmente salvadoras de vidas. A mensagem principal para levar para casa deste texto é: hoje já sabemos, baseados em dados de revisões extensas, que os programas abrangentes de educação sexual ajudam os adolescentes a retardar o início da relação sexual e a reduzir comportamentos sexuais de risco.

Alessandra Diehl

Psiquiatra, doutora em Sexualidade Humana, membro do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Drogas (ABEAD) e membro da Associação Paranaense de Psiquiatria (APPsiq). @dra.alessandradiehl

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Foto: Freepik

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINENSE.

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