O tratamento para o uso de substâncias e as abordagens antirracismo: a dependência não faz discriminação, mas nós fazemos?

Por Alessandra Diehl (*)

Sabemos que em vários países do mundo, o racismo contemporâneo tem contribuído para as disparidades em saúde mental e nos transtornos por uso de substâncias (TUS) entre pessoas negras em comparação a pessoas brancas. O uso do termo negro ou preto aqui neste texto são intercambiáveis. Não há do ponto de vista semântico, nenhuma diferença entre um e outro. Alguns pesquisadores argumentam que sendo um reflexo de mudança geracional, a expressão preta tem sido mais utilizada sempre no sentido afirmativo e de positivação do termo, da raça e de toda a ancestralidade que o termo pode carregar.

Assim, apesar de entrar em tratamento para os problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas com maior gravidade e maiores consequências relacionadas a este uso, pessoas pretas enfrentam mais barreiras de acesso, assim como mais questões relacionados a adesão e ao engajamento no cuidado, como também menor satisfação do atendimento recebido e menor conclusão do tratamento do que seus pares brancos. Evidências científicas destacam uma associação entre racismo interpessoal e uso nocivo de substâncias entre pessoas negras, com fatores raciais comuns a este uso nocivo e as disparidades raciais nas taxas de retenção do tratamento por uso de substâncias.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 54% da população brasileira é negra, o que reforça que com a crescente diversidade racial e a evidência da associação entre discriminação racial e uso indevido de substâncias entre pessoas pretas é necessário e urgente que os profissionais da área, gestores e formuladores de políticas públicas na área da dependência química adotem uma abordagem antirracista nos diversos settings de cuidados ao TUS.

Isso implica na necessidade de conselheiros em dependência química, médicos, assistentes sociais e terapeutas se envolverem em explorações explícitas de como a raça e o racismo influenciam o uso indevido de substâncias e os processos de recuperação com seu público atendido. Entendemos que falar de racismo, muitas vezes, é um assunto complexo e difícil, mas não podemos mais negar que ele não existe! Além disso, os conselheiros e terapeutas devem investigar suas próprias perspectivas sobre identidade racial e racismo para potencialmente reconstruir sua capacidade cultural de uma abordagem racial respeitosa, inclusiva, amorosa e efetiva para o tratamento do uso de substâncias para todos.

Por exemplo, você que trabalha na área já se perguntou a si mesmo se você tem atitudes racistas? O convite aqui é também para a auto-reflexão de como para os brasileiros os racistas são “sempre os outros’, mas “nunca eu” ! Quem quiser ler mais sobre o assunto e aprender sobre o tema eu recomendo o livro “Pequeno manual antiracista”, da escritora Djamila Ribeiro.

Neste contexto, as abordagens antiracistas devem questionar o racismo estrurural como parte da ordem social, reconhecendo que as estruturas institucionais contemporâneas e os discursos socioculturais dominantes foram fundados em um contexto histórico racista que privilegia pessoas que não são pretas. As práticas antirracistas incluem a conscientização sobre o posicionamento social de alguém dentro de um contexto histórico e social de poder e opressão, avaliando normas e valores relativos à raça e construções sociais relacionadas (por exemplo, gênero e classe social) e políticas e práticas que mantêm a opressão do povo preto. O National Institute on Drug Abuse (NIDA), por exemplo, recentemente estabeleceu a Iniciativa de Equidade Racial  para trabalhar para eliminar o racismo e o preconceito racial do local de trabalho do NIDA, aumentar a força de trabalho de cientistas e funcionários apoiados pelo Instituto e o portfólio de fundos do NIDA para pesquisas relacionadas a dependência. Veja aqui!

Os profissionais ao adotarem posturas e abordagens antirracistas precisam procurar desafiar políticas, práticas e costumes– tanto interpessoal quanto sistemicamente – que marginalizam o povo preto. Ao mesmo tempo, estas abordagens devem reconhecer seu próprio posicionamento social baseado em raça.

Esta é uma chamada a todos nós, que trabalhamos na área da dependência química, a abraçar a sua responsabilidade pessoal de prestar cuidados mais efetivos a pessoas negras, reconhecendo as influências do racismo contemporâneo em experiências de pacientes com TUS.

Fonte: Sara Matsuzaka, Margaret Knapp . Anti-racism and substance use treatment: Addiction does not discriminate, but do we? J Ethn Subst Abuse. 2020;19(4):567-593. doi: 10.1080/15332640.2018.1548323. Epub 2019 Jan 14.

(*) Psiquiatra em Londrina e atual presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas

Foto: Pexels

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