O que aprendi com Carolina Maria de Jesus

Nesta semana, a obra Quarto de Despejo completou 61 anos. Uma leitura tão atual e necessária para toda a sociedade

Escritora. Apaixonada por livros. Mãe. Mulher. E um desejo de transgredir a realidade por meio da literatura. Uma escrita potente e subversiva, uma leitura necessária para uma sociedade que está adoecendo com doenças como o racismo, a miséria, o machismo, com as mazelas de governantes despreparados, tantas coisas que já eram ditas nos anos 1960.  O livro também tem conquistado a presença em várias listas de vestibulares pelo Brasil e tem sido fruto de inúmeras pesquisas no campo acadêmico, promovendo um resgaste histórico e literário urgente de uma mulher que tinha tanto para nos falar.

O objetivo da coluna é falar das experiências vividas depois que conheci Carolina Maria de Jesus, li sua obra, conheci sobre sua vida e parei para traçar paralelos com a minha vida de mulher negra, periférica e também uma apaixonada por livros, o que, com certeza, deve ser a realidade de várias outras mulheres negras pelo Brasil.

Uma das perguntas que me fazia depois de ler Quarto de Despejo foi: Como essa mulher- escritora demorou tanto para ser lida e reconhecida como um grande nome da literatura brasileira? A resposta era a mais óbvia possível: uma mulher negra escritora? Como assim? Quem disse que ela tinha esse direito de intitular-se escritora? Sim, a cena literária ainda apresenta um predomínio de escritores homens e brancos. E quando surge uma Carolina Maria de Jesus, tal cenário é questionado. Afinal, onde estão as outras mulheres escritoras do país? Outras composições de mulheres negras? Não havia escritoras mulheres?

 Infelizmente, houve um apagamento histórico das composições de autoria feminina, sobretudo as de mulheres negras. Mas o que eu quero deixar de mensagem ao falar dos 61 anos de Quarto de Despejo, completados em 19 de agosto, é a persistente e resistente lição de Carolina quando se tem um propósito.

“Eu sou escritora, vou colocar vocês no meu livro”, foi essa a frase que a revelou para o mundo das letras, pois dentro de si ela já tinha essa convicção. Um jornalista ouviu e resolveu investigar quem era a mulher escritora e moradora da favela do Canindé. Com isso, toda a sociedade foi presenteada com os escritos de Carolina.

A escritora Carolina Maria de Jesus me ensinou que a leitura é importante para a vida, pois ela adorava ler nos momentos vagos entre uma atividade profissional e outra. Quando li seu livro, chorei copiosamente, em trechos em que mostrava toda a vulnerabilidade social enfrentada: os momentos sem água, sem alimento, sem sabão para lavar as roupas, sem sapato para cobrir o frio dos pés.

Fiquei admirada com o esforço de mãe solo para criar seus filhos e dar-lhes o que era possível. A vontade de sair da favela e mudar a trajetória de sua vida. E esse recalcular de rota seria feito por meio de seu trabalho como escritora, isso ela já sabia.

 Mas a lição mais potente que aprendi com Carolina, ao ler Quarto de Despejo, foi o de ser uma mulher corajosa. Ser uma mulher que sabe que terá muitas pedras em seu caminho, mas que está pronta para enfrentá-las, ainda fazer poesia disso e conseguir perceber beleza em itens que geralmente não têm beleza.

Obrigada, Carolina. Consegui compreender que a fome, que se faz tão presente em Quarto de Despejo, não era apenas a fome por conta da falta de alimento. Notei que eu tenho fome de conhecimento, de leitura, de oportunidades, fome de equidade social. Desejo que novas Carolinas surjam entre nós e nos ajudem na caminhada. Que nossas forças sejam reestabelecidas sempre que for preciso. Que a leitura seja transformadora para outras mulheres negras. Que nossa ancestralidade nos guie e cuide de cada uma de nós. Axé.

Foto: Wikimedia Commons

Quem é Viviane Alexandrino

Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.

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