O Carnaval era para todos…

Por Telma Elorza

Na minha adolescência, fui uma grande fã de Carnaval. A minha pequena cidade natal, no interior de São Paulo, tinha fama na região de ter a melhor festa carnavalesca do interior. Vinha gente de longe curtir a folia. A maioria dos meus primos não perdiam a data, era praticamente a única vez que se reuniam, tirando os velórios na família.

O que fazia o Carnaval de Pirajuí ser tão popular? Bom, para começar, tinha uma grande participação popular. A cidade inteira se preparava para a data, que não tinha nenhum patrocínio público. Festas se espalhavam pelas ruas, o Unidos do Sambeco – a única escola de samba da cidade – ensaiava com entusiasmo meses antes para desfilar pelas ruas de paralelepípedos, o povo acompanhava. E depois vinha o “corso”, o desfile de carros com gente fantasiada ou não, jogando serpentina e água uns nos outros. As batalhas de bisnagas d’água envolviam crianças e adultos. Saiam todos molhados e felizes. Nos clubes, multidões se reuniam para dançar marchinhas de Carnaval a noite inteira. Os bailes terminavam de madrugada e era comum ver grupos fantasiados buscando pão e lanches na padaria.

Com o tempo, essas tradições foram minguando. Em vez de festas no interior, a população com dinheiro descobriu que era mais divertido ir para as praias, onde, além de aproveitar o mar, geralmente tinha um trio elétrico animando a noite, arrastando multidões. Quando não, começaram a ir desfilar nas escolas de samba do Rio do Janeiro ou pular com os originais trios elétricos em Salvador.

As festas do interior – de qualquer estado – passou a ser para aqueles que não tinham dinheiro para nenhuma das opções acima. Com a pandemia, depois de dois anos sem festa alguma, vivemos hoje uma situação nova. Os pobres estão proibidos de ir a festas populares – mesmo que poucas – nas ruas, em eventos gratuitos. Os ricos se reúnem em festas privadas, onde o convite custa o olho da cara. Os pobres trabalham, os ricos se divertem.

O Carnaval virou uma festa de elite. Perdeu-se a espontaneidade e o princípio democrático e popular da festa, a reunião de pobres e ricos com um único objetivo: se divertir. A mais popular das festas brasileiras perdeu o seu sentido.

Foto: Pixabay

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