Por Telma Elorza

Ela caminha pelas ruas da infância com um olhar surpreso. A nostalgia surge em cada nova construção – para ela – que visualiza no caminho. “Aqui não ficava a casa do Manoelzinho da Dita?”, se pergunta a ao ver a loja de camisetas que aparenta já estar no local há alguns anos. E se pega ainda meio com raiva do menino, lembrando de um episódio vergonhoso que o Manoelzinho a faz passar na escola. Na época, era considerado brincadeira. Hoje seria bullying. Se fosse hoje, Manoelzinho poderia ter sido expulso do colégio. “Que fim levou Manoelzinho? Será que virou um tiozão do Zap?”, se questiona, achando lógico, em sua mente, que esse fosse o destino do garoto.

Na esquina seguinte, se depara com um prédio comercial recém-construído na antiga casa da Valentina, a moça que, mesmo de família conhecida, tinha a pior fama da cidade pequena. “Por onde andará Valentina? Ela era tão linda! Todas as meninas tinham inveja dela, ela só arrumava namorado bonito. Será que a fama dela vinha daí? Da inveja? Nossa, por que eu nunca pensei nisso antes?”, surpreende-se ao questionar a má-fama da moça.

Fica triste ao ver que o antigo casarão de uma das mulheres mais ricas da cidade também foi ao chão. Nunca teve oportunidade de entrar naquela casa linda, que povoava o sonho da maioria da população da cidade pequena. Poucos privilegiados eram chamados para o interior da mansão. Receber um convite para entrar naqueles aposentos era como ganhar na loteria. Lembra uma vez que foi levar um bilhete da tia para a dona. Achou que era sua chance de espiar os salões, que imaginava um misto de Capela Sistina com Museu do Louvre. Não passou da porta, que foi apenas entreaberta, sem chance de mira nada mais que a cara azeda da empregada. Vê agora como o terreno era grande e que a antiga piscina foi aterrada. “Que será que vão construir aqui? Mais uma galeria comercial, com certeza. Pena, a casa merecia ser um museu. Ou não. Nunca vou saber”, lamenta-se.

Cadê aquela loja de miudezas, na rua principal? Virou uma farmácia. Mais uma entre tantas da cidade. “Parece que aqui todo mundo fica doente. Só tem farmácias!”, surpreende-se. A loja era um misto de raiva e curiosidade sem fim para sua imaginação de criança porque nunca tinha novidades, só coisas que, na época, pareciam antiguidades. Lembra que era gerenciada por duas irmãs, Eva e Adelaide, solteironas que pareciam muito velhas nos anos na sua infância. Hoje acha que deviam ter por volta de 40 anos. “Será que morreram? Já faz mais de 40 anos que pisei lá, pela última vez”, recorda.

Cansada de ver tantas mudanças e nenhuma cara conhecida entre os poucos pedestres que encontra, decide voltar à casa da mãe. As amigas de infância espalhadas pelo mundo, os ex-namorados casados e barrigudos (pelo menos, imagina que estejam assim), a cidade mudada. Não se encaixa mais no local. Não consegue decidir se foi ela quem mudou ou a cidadezinha. Prefere preservar as memórias nostálgicas. Não se arrepende de ter ido embora na primeira oportunidade. Mas lamenta a passagem do tempo no cenário da infância. O progresso chega, mesmo para as cidadezinhas perdidas no interior.

Foto: Pixabay

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