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Narrativas do cotidiano e nossas origens nem sempre perceptíveis e concretas

Por Suzi Bonfim

Nada melhor do que ser surpreendida como espectadora em uma apresentação artística. Este é o grande segredo da arte, preencher os vazios do nosso ser com emoção.

O início do Festival Internacional de Teatro de Londrina (Filo) 2023, neste sábado (17) e domingo (18) foi repleto de belas surpresas diante das encenações das peças, Estudo nº 1: Morte e Vida, do Grupo Magiluth de Recife, Pernambuco e Itan e Tal, do Grupo Baquetá, de Curitiba, capital do Paraná.

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As diferentes narrativas que fazem o público se manter atento à espera de cada passo dos personagens são as marcas destes espetáculos. Tudo muito real, próximo de cada um de nós, mas que na maioria das vezes, passa meio “batido”, quase que imperceptível.

O Grupo Magiluth, a partir do poema dramático “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, apresenta a trajetória pelo mundo dos migrantes nordestinos para o sul do país e dos movimentos migratórios, seja por mudanças climáticas ou adversidades políticas e sociais, tendo a internet como aliada no palco.

Em cena, o personagem, ao pesquisar no Google, a plataforma de buscas com bilhões de informações, não encontra respostas sobre o homem brasileiro, nordestino, magro e gay. Não há referências a este tipo de perfil na internet.

Em outra cena, o entregador de comida por aplicativo que entra em cena de bicicleta, circula pelo palco até sofrer um acidente, cair morto no chão e ser ignorado pelos outros que vão e vêm como se ele não estivesse ali (o personagem fica estatelado, enquanto a peça continua). Ninguém parou para perguntar quem estava caído, se estava bem ou chamou socorro. Nada!

O jogo cênico do Magiluth é impactante, um roteiro criativo e instigante. “Mas isso ainda diz muito pouco sobre a obra”, só vendo pra entender.

Da capital para os palcos londrinenses, o Grupo Baquetá arrancou aplausos do público na tarde fria de domingo, no Espaço ViIla Rica.

O espetáculo Itan e Tal fala de uma menina negra que, brincando com o pai, acaba descobrindo suas origens.

No jogo das palavras invertidas, a ancestralidade afro-indígena da menina vai sendo desvendada e mostra suas raízes por meio da música, da dança e das cores.

Num tom delicado, o musical Itan e Tal, com certeza levou a plateia repleta de pais e mães com filhos pequenos (muitas crianças não entenderam o contexto, mas ficaram vidradas no cenário e nos sons), a pensar sobre o que eles sabem do seu passado e o que estão repassando para a próxima geração sobre suas origens.

Uma reflexão necessária em tempos de manifestações racistas e que, por meio da arte, se expande.

Suzi Bonfim

Jornalista, formada na UEL, por quase 30 anos morou em Cuiabá -MT. De volta a Londrina-PR, vive a fase R de reencontros e renovação, respirando novos ares. Escreve sobre o que acredita por um mundo melhor. Instagram @suzi.bonfim

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