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Expressões racistas que precisam desaparecer no nosso cotidiano

A coisa está preta, o mercado negro foi fechado, o cabelo da cantora é duro. Com certeza, você já ouviu essas expressões e pode até já tê-las utilizado. O que você não deve saber é que elas são racistas, pois são oriundas do período de escravidão. Por que é importante falar disso? Porque uma sociedade antirracista deve pensar também no vocabulário utilizado para se referir à população negra.

O lastro do período colonial escravista no Brasil nos acompanha até os dias atuais, seja em episódios de ódio aos negros ou, até mesmo, por meio do uso da Língua Portuguesa em nosso cotidiano. Sim, nosso idioma apresenta uma série de expressões e palavras – usadas até hoje – oriundas do período de escravidão e que precisam ser conhecidas para terem seu uso eliminado, uma vez que elas denotam toda a crueldade imposta aos negros durante o Brasil Colônia e sua política de escravidão, além de muitas dessas expressões estarem ligadas à mulher negra e perpetuar vários estereótipos voltados à figura feminina. 

MULATA

O termo mulata vem de mula. Quando aconteciam os estupros a mulheres negras, feitos por homens brancos, surgiu a palavra mulata, uma consideração híbrida às descendentes das mulheres negras com os homens brancos. A sugestão para uso é apenas negra.

INVEJA BRANCA

Você já deve ter percebido que há uma tendência no Brasil em racializar as situações, não somente com os negros, mas também com os asiáticos, por exemplo, com os indígenas. A quem interessa esse dualismo para estabelecer o que é bom e o que é ruim? Façam um exercício de reflexão e pensem na composição social, quem está embaixo, quem está em cima, há quanto tempo estão nas posições de mando…pensou? Então, use apenas inveja. Não precisar racializar as coisas. Inveja é inveja e ponto.

CABELO RUIM OU CABELO DURO

Enquanto mulher negra, escutei muitas vezes que meu cabelo era ruim, de Bombril, e isso me causou sérios problemas de autoestima, precisei, inclusive, recorrer a sessões de terapia para trabalhar o tema.  O que precisa ser dito toda vez que tais expressões cristalizadas são proferidas: Não existe cabelo ruim ou cabelo duro, o que existe é uma diversidade capilar em nosso país, cabelos com características próprias e com especificidades de cuidados e usos.

DA COR DO PECADO

Nessa expressão, temos uma clara ligação de elementos ligados ao negro a questões negativas. Por conta de expressões como essa é que se tem um imaginário pejorativo criado a respeito da performance da mulher negra na hora do sexo. Importante lembrar que a luxúria é um dos sete pecados capitais, de acordo com a Igreja Católica, religião dominante no Brasil Colônia. A luxúria pode ser entendida como um vício em sexo, uma pessoa com a vida sexual desregulada, permissiva. Perceberam o problema?

Você costuma dar cor para todas os itens em sua vida? Cor do amor, cor da família, cor da bênção, cor do salário. Imagino que não. Então, por que as mulheres negras precisam receber “ elogios a respeito da tonalidade de sua pele?

NÃO SOU TUAS NEGAS

Essa expressão é extremamente pejorativa quando utilizada, uma vez que há uma conotação excessiva ao corpo da mulher negra, facilmente ligando o uso da expressão aos episódios de estupros recorrentes. Pensem comigo: O proprietário dos escravos “recebia” o direito de fazer o que bem entendesse com as negras. Logo, a expressão nos revela a crueldade de tratamento com as negras, situação adversa às mulheres brancas. 

CRIADO-MUDO

Conhecido popularmente como aquele móvel que fica disposto ao lado da cama das pessoas. Mas o que muita gente não sabe é que tal expressão é uma herança escravocrata. O que era o criado mudo, afinal? Era o escravo que tinha como função ficar em pé ao lado da cama do seu Senhor para servi-lo durante a noite. Você já imaginou quantas coisas foram presenciadas e silenciadas?

NEGRA DE BELEZA EXÓTICA

Eu já escrevi uma coluna inteira falando disso. O negro passou por um período de apagamento social, inclusive no que se refere a questões estéticas. Enquanto a mulher branca é linda, formidável, a mulher negra é exótica. Afinal, o que é exótico? Algo que não é comum pode ser uma das referências. Quem consegue definir o que é comum? É o padrão eurocêntrico? É a pele branca? É o cabelo liso são os “traços finos tipo exportação”? 

MERCADO NEGRO

O negro sempre associado a ocorrências ruins, erradas, temperamentos problemáticos. Que tal substituir o mercado negro por mercado clandestino, por exemplo?

MEIA-TIGELA

Você em alguma discussão já chamou alguém de “meia-tigela”? Se sua resposta for sim, venho lhe informar que ela, além de racista, denota uma morbidez sem tamanho.

Os negros trabalhavam nas minas de ouro em jornadas extremamente extenuantes e tinham metas de produção para cumprir. Quando as metas não eram alcançadas, recebiam como punição apenas metade da tigela de comida e o apelido de “meia-tigela”, algo, hoje, algo considerado como medíocre, sem importância, inútil. Forte, né?

Volto na próxima semana com mais algumas expressões. Não se desespere, porque você não conhecia o significado das expressões, mas preocupe-se com o que será feito com tais informações. Todos queremos mudanças e ter paz para viver no Brasil, não é mesmo? O recalcular de rota tem início quando o conhecimento nos atinge. Reflita! Até a próxima. Axé!

Quem é Viviane Alexandrino

Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.

Foto: Polina Tankilevitch no Pexels

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