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De todos os amores, o próprio…

Essa frase clichê, que anda circulando pela internet nos últimos tempos, parece não se atentar para a difícil construção do amor-próprio da mulher negra.

A gente cresce se sentindo feia, porque fazem questão de ressaltar isso com uma frequência exaustiva. A gente cresce sabendo que o mundo para nós será difícil, ardiloso, sombrio e devastador. A gente cresce ouvindo que nossa beleza é exótica, que nosso cabelo é horrível. A gente cresce ouvindo que a mulher negra não é para namorar. A gente cresce magoada, ferida, quase sem forças.

A gente cresce e o amor nos é negado. Subjugado. Preterido. A gente cresce e a solidão abrange nosso peito. A gente cresce e ainda continua objetificada. A gente cresce e ouvimos que para todas as coisas há um tempo. Que precisamos esperar nosso momento. Que precisamos ser fortes.

O questionamento-reflexão é este: Como desenvolver o amor-próprio mediante um cenário com tanto repertório negativo? A sociedade precisa analisar as condições sociais para a construção do amor-próprio para a mulher negra e ajudá-las nesse processo, não apenas julgar e cobrar postura combatente, mas sim contribuir para que essa mulher saiba que será possível. Uma triste constatação é que essa construção será lenta, gradual, passa por processos de aceitação, ressignificação, transformação.

Praticar o amor-próprio é uma tarefa diária, assim como precisamos de água e alimento para estarmos bem, o amor-próprio também precisa ser desenvolvido para sobreviver e ter condições favoráveis para isso.

 É uma tarefa difícil para as mulheres negras, por toda a carga escravocrata que avançou pela sociedade após a Abolição da Escravidão no Brasil. Não fomos inclusas nas escolas inicialmente, não tivemos direito ao voto, ao exercício da profissão que desejada, direito às escolhas envolvendo o corpo. Todas essas negativas foram impactando a história de vida de mulheres que precisaram ter consciência de sua situação desde a primeira infância para não esmorecer. Ah, não se esquecendo que o amor-próprio deve estar em dia.

Penso sempre que sobre a mulher negra recai cobranças dobradas, duras e severas. É como se ela sempre precisasse estar disposta, não reclamar, não chorar mediante aos percalços do dia a dia. E quando ela se permite chorar e não ter uma postura empática consigo, as cobranças aparecem em forma de crítica, palavras duras e não há um estender de mãos.

O processo de reconhecimento do amor-próprio é uma proposta de desenvolvimento pessoal e que irá ter altos e baixos. Você já percebeu que temos a tendência de repetir o aprendido? Se os conhecimentos que nos atingem são positivos, tudo bem. Mas pensem comigo: e para a mulher negra? Eu já estou há semanas mostrando que as borrachadas são mais embaixo e elas doem em proporção maior.

Entender sobre si é um caminho aberto para a cura. É equilíbrio. Paz. Autoconhecimento. Aceitação! Essa é a principal palavra que marca minha trajetória no processo de reconhecimento como mulher negra. Além disso, me reconhecer para me encontrar – parece clichê, e é – foi fundamental para que a minha identidade de mulher negra viesse à tona, que eu tivesse o comprometimento de saber da história do meu povo e lutar por ele. Por elas! A aceitação e meu caminho rumo ao amor-próprio se passou por minhas marcas identitárias, como meu cabelo, por exemplo. A simplicidade não me acompanhou nesse curso. A empatia faltava.

O desespero batia e sobravam angústias e receios, pois ter amor-próprio também passa pelo crivo dos demais. E é nesse momento que a opinião navalhante de muitos lhe fazem regredir e pensar que está no caminho errado. O amar-se é um fundamental para estabelecer uma relação saudável com a sociedade e conosco.

Quem é Viviane Alexandrino

Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.

Foto: Asa Dugger no Pexels

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