Skip to content

Trabalho invisível sobrecarrega mulheres e mantém desigualdade de gênero

Por Márcia Huçulak

Além de inédito, o tema da redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) deste ano, realizado no dia 5/11, trouxe à tona uma questão importantíssima e pouco ensinada nos cursinhos preparatórios para a prova e ao longo da vida escolar:  “Desafios para o Enfrentamento da Invisibilidade do Trabalho de Cuidado Realizado pela Mulher no Brasil”.

Ele aborda dois tópicos interessantes e relacionados. Primeiro, à questão do trabalho invisível, das funções entendidas pela sociedade como próprias e típicas da mulher. Segundo, ao gênero. Na concepção masculina, trabalho é algo palpável, visível e que deve ser compensado de alguma forma – ou seja, pago.

LEIA TAMBÉM

Que quatro milhões de estudantes tenham se debruçado e refletido sobre o tema é um bom sinal na direção de encarar e diminuir essa distorção.

Ao longo da história da humanidade muitas tarefas foram destinadas à mulher: cuidar da casa, dos filhos e do seu par, dos pais, eventualmente de qualquer membro do núcleo familiar que necessite de ajuda, zelar para que os membros de uma casa tenham comida na mesa, roupas lavadas, cama arrumada, casa limpa, tarefas escolares feitas, entre muitas outras.

Felizmente, esse tipo de escravidão tem sido questionado de várias formas, com mais força nos últimos anos. 

Já era hora.

Obviamente, o crescimento da independência e da autonomia que as mulheres vêm conquistando a duras penas é acompanhado de renúncias diárias em benefício do núcleo familiar.

Trabalho invisível

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as mulheres dedicam por semana, em média, 9,6 horas a mais do que os homens nas tarefas domésticas. A distorção diminuiu, eram 10,6 horas em 2019. Ainda assim, é mais do que a carga horária de um dia inteiro de trabalho “formal”.

Onde isso impacta? Naquela promoção no emprego que vai para outra pessoa porque ela não tem quem busque o filho ou filha na escola ou porque não terá com quem contar caso precise viajar a trabalho.

Todas conhecemos bem essas situações.

No competitivo ambiente do trabalho, não basta a mulher ser eficiente e eficaz para ter oportunidades de crescimento. No mundo corporativo, as questões relativas às necessidades do cuidado que a sociedade tanto precisa e demanda não têm espaço, pois fazem parte do abstrato, do invisível, do “entendido não-remunerável”. As promoções serão destinadas para aqueles que supostamente estarão disponíveis integralmente para a empresa.

Estudos e evidências cotidianas demostram que, na hora das promoções para as funções mais bem remuneradas e de comando, os homens continuam a ser mais beneficiados.

Recentemente, por exemplo, entrou em vigor no Brasil a lei que assegura paridade de salário para homens e mulheres na mesma função (Lei 14.611/23). Precisa ser dessa forma.

Essa lei só veio para reforçar os dispositivos legais previstos na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT, de 1943) e também na Constituição Federal de 1988.

Mesmo assim, a realidade atual mostra uma persistente distorção salarial entre homens e mulheres na mesma função. Elas ganham o equivalente a 78% do que ganha o homem; no caso das mulheres pretas e pardas, a situação é ainda pior (46%, menos da metade).

Isso apenas confirma os desafios que as mulheres enfrentam para ganhar espaço social e econômico.

Leis são necessárias para garantir cotas de gênero e igualdade salarial. Contudo, não são suficientes para alterar a forma como as famílias, empresas e a sociedade se relacionam com a mulher.

Embora a redução dessa desigualdade estrutural seja muito lenta, haverá dia que homens e mulheres possam conviver em condições iguais, sem necessidade de cotas e limitação de espaços.

Viva as mulheres!

Márcia Huçulak

Mulheres dedicam, por semana, quase 10 horas a mais que o homens nas tarefas domésticas. Esse trabalho invisível não é renumerado.
Divulgação/Alep

Como secretária de Saúde de Curitiba (2017/2022), liderou o enfrentamento da pandemia de covid-19 na capital – trabalho reconhecido nacionalmente. Formada em Enfermagem pela PUC-PR, tem mestrado em Planejamento de Saúde pela Universidade de Londres (Inglaterra) e especialização em Saúde Pública pela Fiocruz. Elegeu-se deputada estadual em 2022 pelo PSD, sendo a mulher mais bem votada do estado e a mais votada (entre homens e mulheres) de Curitiba. Encontre a Márcia Huçulak nas redes: site
www.marciahuculak.com.br; Instagram: @marciahuculak; Facebook: Márcia Huculak. Telefone gabinete: (41) 3350-4223.

Leia mais colunas de Márcia Huçulak – Mulher na Política

Ilustração: Canva

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINENSE.

Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Designed using Magazine Hoot. Powered by WordPress.