Maconha e esquizofrenia: quais os próximos passos a serem desvendados?

Por Alessandra Diehl (*)

Estima-se que cerca de 192 milhões de pessoas usam cannabis no mundo. Tal montante de pessoas usuárias de maconha demonstra seu status como a droga mais popular depois do álcool e do tabaco em todo o mundo. Um dos riscos de se consumir maconha que continua a atrair atenção significativa de pesquisadores e clínicos da área é o risco de desenvolvimento de esquizofrenia. Distinguir entre causalidade e associação nesta questão tem sido um verdadeiro desafio da pesquisa científica. A associação entre o consumo de cannabis e o desenvolvimento da esquizofrenia já é algo noticiado no meio cientifico há mais de um século. No entanto, a natureza deste relacionamento é que ainda merece expansão de evidências. A cannabis tem sido apontada como um fator de risco independente para a esquizofrenia em 6% dos usuários pesados desta substância.

Três hipóteses descrevem a relação potencial entre cannabis e esquizofrenia na literatura contemporânea:

1. A cannabis pode desencadear esquizofrenia em um indivíduo que não teria desenvolvido a doença se não tivesse sido expostos à droga. Questões metodológicas ainda reinam nesta esfera, já que parece existir uma relação de dose-efeito do uso de cannabis para sintomas psicóticos, mas há uma heterogeneidade significativa na avaliação da dose. No entanto, alguns indivíduos parecem ser sensíveis a baixos níveis de exposição à cannabis; ainda não está claro se isso se deve ao aumento da potência da cannabis ou a algum outro fator, como genética. Já sabemos que o uso precoce de cannabis aumenta o risco de desenvolvimento de esquizofrenia. Assim como tem sido identificada maior vulnerabilidade para indivíduos que fazem uso da droga durante a adolescência, assim como aqueles que haviam apresentado sintomas psicóticos prévios e aqueles que tinham elevado risco genético para desenvolverem esquizofrenia.

2. Indivíduos com predisposição a esquizofrenia e uso cannabis para mitigar os sintomas prodrômicos (que antecedem o aparecimento da doença) da esquizofrenia, conhecido como causa reversa. Esta hipótese sugere que indivíduos mais predispostos ao desenvolvimento de esquizofrenia são atraídos pela cannabis com o objetivo de mitigar os primeiros sinais de sintomas negativos da esquizofrenia. Embora plausível, deve-se ressaltar que vários estudos mostram como essa não é a principal razão que esses indivíduos dão de forma consistentemente como a motivação para o uso desta substância. O prazer e a recreação são os principais motivos apontados por estes pacientes. Neste contexto, é interessante observar que uma via de pesquisa que pode ser promissora é o potencial que um grupo de compostos encontrados na cannabis pode oferecer no tratamento da esquizofrenia. O canabidiol, por exemplo, já tem recebido alguma avaliação científica neste sentido. Precisamos de ensaios clínicos metodologicamente bem conduzidos para demonstrar se de fato pode ser útil.

3. A existência de uma causa comum, como uma responsabilidade genética compartilhada, seja responsável pela ligação entre a cannabis e a esquizofrenia. Até agora, a pesquisa genética tem falhado em fornecer uma explicação plausível envolvendo um fator puramente biológico ou genético que mostre claramente a direção da relação entre cannabis e esquizofrenia. Embora seja possível que haja uma relação e mesmo que isso surja no futuro como de fato causal, ela seria influenciada significativamente pelo ambiente do indivíduo.

Outras lacunas que ainda permanecem na pesquisa e na compreensão da relação entre maconha e esquizofrenia reconhecem a nossa limitada compreensão das ligações entre cannabis e esquizofrenia para as mulheres, já que alguns dos estudos longitudinais, tais como estudos provenientes da Suécia, Suíça e Nova Zelândia, que mostraram fortemente a associação entre maconha e esquizofrenia, incluíram desproporcionamente mais homens.

Além disto, a pesquisa sobre esquizofrenia e cannabis tem sua origem e continua a ser dominada por participantes provenientes de países ocidentais com amostras da América, Austrália e Europa. Seria muito interessante se pudéssemos ter mais estudos em países orientais e verificar como a cultura poderia influenciar tal ligação.

Importante neste contexto de pesquisa sobre o tema é equilibrar cuidadosamente a investigação sobre maconha e esquizofrenia entre a neurofisiologia e os aspectos sociais da psicose da cannabis já que os investimentos têm sido maiores em investigar hipóteses biológicas em detrimento dos aspectos culturais.

Fonte: Ian Hamilton, Mark Monaghan. Cannabis and Psychosis: Are We any Closer to Understanding the Relationship? Curr Psychiatry Rep. 2019 4;21(7):48. doi: 10.1007/s11920-019-1044-x.

(*) Psiquiatra em Londrina e atual presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas

Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.