Há 50 anos, acontecia a primeira transmissão em cores na TV. Eu e milhões de brasileiros não vimos

Por Telma Elorza

Eu ia fazer oito anos, quando começaram a fazer a transmissão à cores na televisão brasileira. Mas só fui ver cores na TV muito tempo depois, acho que uns quatro anos depois, quando finalmente meus pais compraram o primeiro aparelho de TV em cores.

Morando numa cidade pequena do interior de São Paulo, meu contato com a televisão começou razoavelmente tarde para os parâmetros de hoje, em que as crianças nascem assistindo programas infantis como Galinha Pintadinha (é esse ainda?) e outros, nos streamings da vida.

Lembro que eu e meu irmão, pequenos, com no máximo 3 e 4 anos respectivamente, íamos a uma loja vizinha de casa, a Casa Ramos (uma loja de departamentos chique, na época) e ficávamos deitados no chão, no meio dos corredores, assistindo a uma TV P&B que os proprietários tinham instalado no local.

Não entendíamos nada, mas era interessante ver as imagens que passavam naquela telinha. Os donos da loja, os irmãos Agenor e Álvaro Ramos, proibiam qualquer um de mexer conosco. Nós podíamos ficar ali, sem sermos perturbados, o dia todo. Minha mãe que não deixava e nos arrastava para casa, na maioria das vezes chorando.

Quando meu pai comprou o primeiro televisor (sim, era assim que era chamado), uma Telefunken P&B, eu acho que já tinha uns 5 anos, fem 1969. Eu tenho uma memória de ter visto o primeiro homem andar na Lua naquela televisão. Mas não tenho certeza. E minha mãe também não lembra se isso aconteceu ou é delírio meu.

De acordo com a Agência Brasil, a primeira transmissão em cores só aconteceu em 19 de fevereiro de 1972, feita pela Rede Globo. Com imagens da TV Difusora de Porto Alegre, a Globo transmitiu a Festa da Uva de Caxias do Sul (RS) com narração de Cid Moreira. Em 31 de março daquele ano, o novo padrão de transmissão em cores, chamado PAL-M, foi oficializado.

Mas era um tecnologia cara. A maioria da população brasileira não tinha condições de adquirir um aparelho em cores. Muitos usavam plástico com faixas coloridas sobre as telas, para dar uma falsa sensação de cor. Então a gente tinha cabeças amarelas, corpos vermelhos, calças azuis e ou vice-versa. Bizarrices de pobres, que as crianças de hoje não tem nem ideia do que seja.

A primeira novela totalmente colorida foi “O Bem-Amado”, trama de Dias Gomes, que começou a ser exibida em janeiro de 1973, pela Globo. Eu não assisti. Minha mãe e minha vó gostavam das novelas da Rede Tupi, que tinha uma dramaturgia muito superior – segundo elas – que a Globo e, pelo que me lembro, eram preto e branco.

Não sei exatamente quando meu pai trocou a Telefunken por outra TV (nem lembro a marca dessa, deve ter sido uma Philco), colorida. Mas uma coisa eu lembro com certeza: assisti aos dois últimos capítulos de “Estúpido Cupido”, de Mário Prata, a primeira novela que acompanhei (por ser baseada em histórias da adolescências de Prata em Lins, cidade vizinha da minha Pirajuí). Isso foi apenas em 1976. Nunca mais vi algo em P&B, a não ser alguns filmes clássicos, claro.

De lá para cá, muita coisa mudou. Hoje, nem assisto mais TV aberta, apenas streamings. Nunca tinha parado para avaliar o salto que foi, primeiro a televisão, depois as cores na TV, tecnologias que permitiram toda uma revolução que nos fazem ver filmes no celular e conversar em chamada de vídeos com nossos queridos. Fazem só 50 anos. Nada, se comparado aos cerca de 12 mil anos de civilização humana. Então, um VIVA às cores na TV!

Foto: Pexels

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