Filo 2022 pode ter nova edição em dezembro: balanço reflete sobre público, artistas e polêmicas

Um público de pelo menos 7 mil pessoas acompanhou a edição 2022 do Festival Internacional de Londrina (Filo), que terminou domingo

O Perobal

Um público de pelo menos 7 mil pessoas acompanhou a edição 2022 do Festival Internacional de Londrina (Filo), que terminou domingo. A informação foi divulgada na última segunda (27), na Revista do Meio-Dia, da Rádio UEL FM, durante entrevista ao vivo do diretor artístico do Filo, Luiz Bertipaglia, e da coordenadora de produção do Festival, Amanda Freire. Amanda integra a Aspa (Associação dos Profissionais de Arte de Londrina), que, pela primeira vez, realiza o Festival em parceria com a UEL.

No bate papo, eles fizeram um balanço dos acertos e do que significou a retomada, depois de dois anos, do festival. Também responderam às críticas e comentaram polêmicas. Bertipaglia reconheceu, ainda, uma dívida de 2017 do Festival, com seis grupos e companhias, que ainda não receberam seus cachês. Ele disse que está buscando formas de solucionar, mas não informou prazos. Os organizadores planejam uma nova edição em dezembro, desde que se confirmem os patrocínios do município e dos governos Estadual e Federal, além de empresas privadas. O Filo 2022 contou exclusivamente com recursos da Prefeitura de Londrina, por meio do Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura), que liberou R$ 350 mil.

“O mais bacana foi o reencontro. A confraternização do público com os
artistas em momentos alegres, bonitos, mas também chocantes. Houve um
reencontro com o público tradicional, que há anos acompanha o festival, mas também teve gente nova, crianças”, explicou Bertipaglia. Para Amanda, as pessoas
estavam animadas e felizes com a volta do Filo. “Sábado mesmo, após a primeira
apresentação da peça Cocô de Passarinho, uma criança disse à mãe: ‘como é legal vir
ao teatro’. Deixou o grupo emocionado e a gente contente”. Ela lembrou ainda da
aposentada Marli Pereira da Silva, 71 anos, que veio de São Paulo para acompanhar
todos os espetáculos.

Luiz Bertipaglia e Amanda Freire em entrevista à Rádio UEL FM. Dupla fez um balanço do Filo 2022, sob o ponto de vista da organização.
Luiz Bertipaglia e Amanda Freire, da organização do Filo 2022, em entrevista à Rádio UEL FM (Foto: Ricardo Lima/ Rádio UEL)

Atualidade

Este ano, a mostra foi reduzida, com 12 dias e 24 apresentações, sendo 15 delas monólogos e três espetáculos de rua. O festival teve o ator argentino Victor Ávalos, o palhaço Tomate, como única atração internacional. Equipes reduzidas do Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo foram a forma que a organização do Filo encontrou para dar conta do baixo orçamento. Os grupos de Londrina também tiveram participação significativa, com cinco espetáculos. As peças de palhaços representaram 25% do total de apresentações.

Assim como em edições anteriores, temas da contemporaneidade como negritude, sexualidade, feminilidade, cancelamento e empoderamento da mulher foram temas de espetáculos. Este ano, o festival teve todas as apresentações também em Libras (Língua Brasileira de Sinais), com cinco intérpretes que se revezaram nos espetáculos. “Além da acessibilidade ser exigida pela legislação, possibilita as pessoas irem ao teatro. Estamos estudando a audiodescrição para as próximas edições”, explicou Bertipaglia.

De acordo com a coordenadora de produção, a Aspa já realiza esse trabalho com uma empresa e foi preciso fazer alguns ensaios dos intérpretes com os atores, especialmente dos espetáculos mais intimistas. “Tivemos público da comunidade surda assistindo. E, mesmo que não tivéssemos, essa oferta não deve ser exceção. Deve ser regra”, defendeu.

Fila do Filo

Os espetáculos realizados na Divisão de Artes Cênicas da Casa de Cultura da UEL (DAC) e no Sesc Cadeião tiveram ingressos esgotados em todas as apresentações. A alternativa foi a fila de espera. “Várias pessoas compraram, pagaram, mas não foram.
Às vezes compram na empolgação, mas no dia não conseguem ir. Até mesmo por sentir algum sintoma de Covid-19. Têm ainda as cortesias entregues à Secretaria de Cultura e à UEL. Tem gente que pega os convites e não vai. Aí vendemos os ingressos na hora e por isso conseguimos acomodar espectadores em peças com ingressos esgotados”, explicou Amanda.

A UEL FM testemunhou no Sesc Cadeião duas filas do Filo que funcionaram. Uma delas garantiu pelo menos 8 pessoas no espetáculo “Emaranhada”. Outra proporcionou mais de 10 pessoas na peça “O Carteiro”. Mas teve gente que foi até a porta da DAC, por exemplo, e não conseguiu entrar. Exemplos de filas que não andaram foram no primeiro dia do espetáculo Stabat Mater, de Janaina Leite, de São
Paulo, na DAC; e Réquiem para um barbeiro, da Cia Os Palhaços de Rua, de Londrina, no Cadeião. “A gente sente muito”, diz Amanda. Para ela, a fila do Filo foi mais leve graças aos atores André Demarchi e Adalberto Severiano, da CIA Amma. Eles dão vida à Andréia e Xandra, e divertiram o público em frente aos espaços, além de ajudar a cobrar o uso de máscaras no Ouro Verde, DAC e Cadeião.

Polêmicas nas redes

Pelo menos duas polêmicas nas redes sociais ganharam destaque nessa edição do Filo. Uma carta assinada por seis pesquisadoras, quatro delas ligadas à UEL, questiona o motivo da escolha do espetáculo “A Descoberta das Américas” para a abertura do festival e critica o riso de cumplicidade da plateia “diante de falas que simulavam a invasão da América e suas práticas de crueldade e extermínio”.

“O espetáculo foi selecionado por sua qualidade artística, considerada boa suficiente para abrir a programação. A escolha não passou pela intenção de causar qualquer tipo de polêmica. A história que origina esse texto, que é a descoberta das Américas, trata de uma coisa cruel, irreparável, do ponto de vista daquele colonizador, assassino de índios. É narrada por ator que obviamente não concorda com aquelas práticas, mas, por outro lado, ele cumpriu a função, a necessidade de discutir. O teatro não tem necessariamente que trazer a verdade histórica. O público ri de suas próprias mazelas, de sua cumplicidade. O tema é muito complexo e dá tese. Dá até livro. O texto existe, está publicado e o ator contou de forma peculiar dentro da visão de Dario Fo”, defendeu Bertipaglia.

Ele também elogiou o trabalho de Julio Adrião, que ganhou o prêmio Shell de melhor ator pelo monólogo, que estreou em 2005. O diretor artístico avaliou que esse tipo de polêmica sempre irá existir quando o FILO apresenta assuntos atuais. Lembrou que o festival trouxe, anos atrás, uma artista trans para interpretar Jesus Cristo. “Houve um grupo tentando impedir a realização do espetáculo”.

De acordo com Amanda, no segundo dia de apresentação de A Descoberta das Américas, um grupo de indígenas acompanhou a peça, a convite de Adrião. Houve um bate papo com o ator no final da apresentação. “O espetáculo foi muito bom e traz assuntos que precisam ser pautados. Entendo as críticas de ainda usar palavras como índio e tribo. São, sim, problemas, mas o texto trata de várias polêmicas de forma irônica e não tem função de ser pedagógico”.

Outra polêmica que ganhou as redes do próprio Filo foi a cobrança de uma parte de atores e grupos que se apresentaram no Festival em 2017 e até agora não receberam os cachês. Bertipaglia reconheceu a dívida. Segundo ele, o festival não conseguiu, na época, realizar um dos convênios previstos, no valor de R$ 350 mil. Seis grupos e companhias que não receberam estavam na planilha do convênio não assinado. “A dívida com os grupos é de R$ 170 mil e o restante para outras despesas”.

Segundo ele, a edição de cinco anos atrás teve pelo menos 25 grupos, vários deles internacionais, além de duas apresentações da atriz Fernanda Montenegro. O recurso do festival veio de patrocinadores como Petrobras, Promic e governo do Estado. “Conseguimos outra edição, em novembro, com dinheiro do convênio que não assinamos em junho, mas não foi possível pagar o anterior”.

Ele lembrou que em 2018 o Festival não foi realizado, embora uma campanha tenha buscado arrecadar recursos que seriam destinados aos grupos que não receberam.
Mas, segundo Bertipaglia, a campanha não teve sucesso. “A única forma de os grupos receberem é o Filo continuar existindo. Quem sabe a gente consiga solucionar trazendo essas companhias para se apresentarem novamente. Entendo a posição dos atores e enviamos documento para eles. Eu também ficaria bravo, mas vamos ter que contar com um pouco mais de paciência ainda para resolver. Estamos dando a cara a tapa para tentar solucionar”. Bertipaglia não estimou prazo.

Curadoria e dezembro

Como diretor artístico, Luiz Bertipaglia seleciona os grupos que se apresentam no FILO. Mas não realiza essa tarefa sozinho. A equipe é integrada também por Amanda Freire, Alexandre Simioni (que foi coordenador geral do Filo nesta edição), Gerson Bernardes, Jackeline Seglin e pela diretora da Divisão de Artes Cênicas da Casa de Cultura da UEL, Laura Franchi. Estudantes do curso de Artes Cênicas da Universidade trabalham na produção do Filo, por meio da empresa júnior Rosa Amarela. Eles ganharam elogios de vários artistas durante o Festival.

Bertipaglia defende que a curadoria dialogue com a população do espaço onde está inserida e também traga para o debate problemas e mazelas. “O ator é um ser essencialmente político que pauta discussões importantes. Mas, o festival também deve proporcionar momentos de respiro”.

Pode ser que o público de Londrina tenha a chance de conferir outras peças do Filo em dezembro. Os organizadores vão apresentar projeto à Secretaria Municipal da Cultura. A proposta também está sendo avaliada pela secretaria vinculada ao Ministério do Turismo, do Governo Federal. “Temos expectativa de o festival ser aprovado para conseguir recursos junto ao governo do Estado. Estamos em conversas para uma edição um pouco mais ampliada, em busca de outros patrocínios”. A data prevista é no período entre 1 e 12 de dezembro.

Foto: Ricardo Lima/Rádio Uel

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