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Era uma vez uma livraria…

Concorrência desleal, crise econômica e novos hábitos de consumo são responsáveis pela baixa procura por livros e o consequente fechamento de livrarias no país

Juliana Nunes

Equipe O LONDRINENSE

A indústria livreira é grande e muito competitiva, mas conta com pouca representatividade, precisando, a todo momento, se reinventar para permanecer de pé. Problemas com consignação, falta de profissionalismo no mercado, distribuição, frete, concorrência, descontos desleais e a diminuição do interesse pela leitura de qualidade, são alguns dos fatores que mais contribuem para este cenário, dificultando o crescimento e a permanência de muitos empresários do segmento no mercado.

Dados de um levantamento feito pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), em maio de 2018, mostram que o mercado editorial brasileiro encolheu 21% nos últimos 12 anos, gerando perda de R$ 1,4 bilhão para o setor. Depois de um período de expansão, entre 2006 e 2011, quando chegaram a faturar cerca de R$ 7 bilhões, as editoras começaram a ver seus faturamentos despencarem, impactadas pela crise econômica que afetou o país a partir de 2015. O resultado disso: menos títulos publicados, redução na produção editorial e muitas portas fechadas.

Gigantes como Editora Abril, Livraria Cultura e Book Partners pediram recuperação judicial. A Saraiva, uma das maiores redes de livrarias do país, teve dificuldades para honrar seus pagamentos com fornecedores. Além da crise econômica, a chegada da Amazon no Brasil, em 2014, é apontada por representantes do setor como uma das principais influenciadoras da decadência livreira. Segundo eles, a americana queridinha dos internautas na atualidade mudou hábitos de consumo, atraindo muitos clientes para o e-commerce, que costumavam comprar no varejo tradicional, apelando para propostas tentadoras e tabelas de preços mais baixas que a média praticada nacionalmente.

Os dois lados da moeda

Em Londrina não tem sido muito diferente. Grandes e pequenas livrarias também estão encerrando as atividades, ou tendo que se adaptar para não serem atingidas pelo mesmo caos.

A Livraria da Silvia é um destes exemplos. O local está prestes a fechar as portas, com data final já agendada para a última semana de abril. Única livraria de rua em atividade na cidade, foi fundada em 2010 na rua Belo Horizonte com a Pio XII, onde chegou a atingir um acervo de 12 mil títulos. Com a chegada da crise, precisou reduzir custos, passando a atender (desde janeiro de 2018), em um coworking na rua Goiás, baixando seu catálogo para cerca de 3 mil livros apenas.

Silvia Liberatore fechará sua livraria até o final mês (Foto: acervo pessoal)

“As pequenas livrarias, hoje, não se sustentam no país. As grandes editoras nos desvalorizam, porque os descontos para as grandes lojas são maiores que para o pequeno empresário. Alguns lojistas também derrubam os preços por um tempo determinado, assumindo um prejuízo temporário para que, quando os concorrentes quebrarem, eles possam assumir o mercado”, lamenta Silvia Liberatore, a proprietária. Ela conta que chegou a vender livros pelo preço de custo, sem acrescentar nenhum centavo a mais de lucro. Mesmo assim, lamentavelmente, ainda perdeu muitos clientes.

A intenção de Silvia era crescer, não apenas como livraria, mas como um espaço cultural, oferecendo um trabalho quase que como um “self-service” de livros, onde as pessoas pudessem ficar à vontade para se servirem com informação e cultura de qualidade. “Eu costumava chamar as grandes livrarias de ‘fastbooks’ e a minha de ‘livraria bistrô’, onde eu, como ‘chef do bistrô’ escolhia a dedo meu ‘cardápio’, tendo como carro-chefe da casa os autores locais, que dificilmente ocupam espaço relevante dentro das megastores”, explica. Mas a concorrência desleal tornou seu sonho impraticável.

Já a rede Livrarias Curitiba, que conta com uma filial no Shopping Catuaí, desde setembro de 2004, apesar de ter vendido 5,6 milhões de livros em 2018, com pretensão de crescer de 5 a 7% em 2019, também precisou criar estratégias para se reinventar e permanecer de pé. Atentos às demandas, também, dos novos hábitos de consumo de seus clientes, o grupo criou diversos canais de comunicação para facilitar o atendimento e oferecer o que há de melhor em conhecimento e entretenimento.

Marcos Pedri, diretor comercial da Livrarias Curitiba (foto: André Kopsch)

De acordo com o diretor comercial do grupo, Marcos Pedri, as indefinições do mercado causaram receio em todo o setor, tanto na indústria quanto no varejo. “Sentimos que o mercado literário ‘freou’ nos últimos três anos, mais pela desconfiança dos cenários político e econômico, pelo aumento do desemprego e pela queda do poder de consumo das famílias”, comenta.

Para manter o crescimento nas atividades, ele conta que optaram por realizar ações em diferentes frentes, como excelência no atendimento; constantes treinamentos dos funcionários; adequação no formato das lojas; realização de campanhas promocionais; investimento em mix de produtos para todo tipo de público; vendas no atacado, com preços acessíveis; rapidez na entrega, facilidade de pagamento e amplo relacionamento com clientes. 

Pedri acredita que, apesar de tudo, o brasileiro está lendo mais a cada ano e existe, sim, espaço para todos em qualquer plataforma de acesso. Para ele, o livro impresso ainda está muito longe de ser ‘extinto’, mas é preciso mais empenho por parte da população, principalmente no que se refere à cultura e educação dos brasileiros. “Se não estou enganado, cada brasileiro lê, em média, três livros por ano. Se considerar que temos uma população de mais de 200 milhões, o potencial de crescimento é enorme, mas falta educação. Quando a pessoa tem boa educação desde cedo, ela adquire o hábito da leitura pelo prazer do conhecimento e lê pelo resto da vida”, reforça. 

Não só um direito, mas um dever de todos

A Câmara Brasileira do Livro (CBL) trabalha para incentivar mútua colaboração entre indústria e varejo, mobilizando setor público e privado para que sejam discutidas ações que favoreçam a todos de forma justa. Com isso, conseguiram protocolar um Projeto de Lei, que tramita no Congresso desde 2015, com a proposta de criar uma Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE), traçando estratégias que contribuirão para a universalização do direito ao acesso ao livro, à leitura, à escrita, à literatura e às bibliotecas.

De acordo com Luís Antonio Torelli, ex-presidente da CBL, para driblar a crise é necessário aumentar a base de consumidores de livros no país. “É preciso ampliar o número de bibliotecas, eliminar o analfabetismo e criar mais programas de acesso ao livro nas redes públicas de ensino”, conforme afirmou em entrevista recente à instituição, antes do término de seu mandato, em fevereiro deste ano.

Para Torelli, a leitura é determinante para ampliar a maneira como se percebe o mundo, aprimorando o raciocínio humano contra preconceitos e a liberdade de ideias. “Quanto mais o livro estiver ao alcance dos brasileiros, mais próximos estaremos do conceito inerente à sociedade do conhecimento, que caracteriza os povos verdadeiramente livres, soberanos e capazes de construir uma história vitoriosa”, afirma.

É preciso fazer sua parte

Com a disseminação das mídias sociais, se criou uma infinidade de possibilidades que deram vazão ao acesso à informação, gerando mais oportunidades para as pessoas se inserirem no mundo da leitura. Contudo, a maioria ainda traz informações pobres, com textos vazios, produzidos por fontes aleatórias, de origens duvidosas e com conteúdo, muitas vezes, falso ou irrelevante. O prazer pela leitura ficou em segundo plano, os hábitos de consumo se tornaram mais imediatistas e a qualidade cedeu lugar à quantidade.

Fernanda Mendonça tem 37 anos, é formada em marketing e propaganda, esposa, mãe de duas meninas em tempo integral e ‘leitora escondida de banheiro, filas, salas de espera e quartos escuros’, como ela mesma se define. Ela, que nasceu em uma família de leitores, conta que aprendeu a ler aos quatro anos de idade, começando por gibis e, desde então, nunca mais parou, criando o gosto, o hábito e a paixão por livros.

“Meu pai sempre gostou muito de ler. Antes das sete da manhã ele já havia lido o jornal do dia, e, na cabeceira dele sempre havia mais de um livro, que ele ia alternando ‘pra trabalhar a memória’. Lembro que ele ia mostrando com os dedos onde estava lendo e assim fui aprendendo. Me levava ao sebo aos sábados e à banca Flamengo aos domingos, para escolhermos livros e gibis para a semana”, relembra.

Para repassar os ensinamentos que herdou de seus pais, ela dá uma dica muito legal, que pode ser utilizada por todos os papais de plantão: na hora das refeições, troque a TV pelo livro. “Enquanto a Cecília (6 anos) vai comendo sozinha, eu vou alimentando a Sabina (um ano), ao mesmo tempo em que vou lendo trechos de algum livrinho que elas gostam. As duas prestam atenção, interagem e, por não perderem tempo olhando pra tela da TV ou de um computador, consigo persuadi-las a comerem melhor”, explica.

Fernanda Mendonça e as filhas Cecília e Sabina (Foto: acervo pessoal)

Além disso, já introduziu livros sensoriais para a filha menor. A mais velha, ela a incentiva a ler sozinha, em voz alta – momento em que a mãe aproveita para ir corrigindo e ensinando quando houver dificuldades. E ainda tem as tradicionais leituras noturnas, é claro, antes de dormir, que ambas também gostam bastante e já esperam ansiosas. “Se seus filhos te verem lendo, eles vão querer ler também. Isso fez com que a Cecília evoluísse muito. A leitura dela é muito boa, ela sabe fazer as entonações e pausas corretas nos momentos certos, e a comunicação dela com as pessoas também é ótima. Acho isso muito importante”, conta orgulhosa.

Há três anos, Fernanda acabou cedendo aos encantos do livro digital, principalmente pela praticidade em manuseá-lo, uma vez que, com a maternidade, os momentos para si foram ficando cada vez mais escassos. Mesmo assim, revela que, para as filhas, ainda prefere o livro impresso. “Acredito que elas precisem do toque, da textura, do cheiro do livro, das imagens táteis, e todas as sensações que o livro impresso nos traz”, afirma

O gosto pela leitura deve vir de berço. Se não houver o incentivo desde a primeira infância, seja pela escola, seja pela própria família, muito provavelmente essa pessoa não despertará um desejo legítimo e prazeroso pela leitura na vida adulta e isso, certamente contribuirá, não só para o aumento da crise livreira como um todo, mas, principalmente para a “deseducação” da humanidade. Com bom exemplo se faz o hábito, se cria a cultura, se dissemina a educação e se determina o bom caráter de qualquer pessoa. Vamos começar hoje?

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1 comentário

  1. Ótima matéria, mostra a realidade do mercado do livro, mas aponta também que há espaço para que o público leitor possa crescer, com projetos educativos e programas de incentivo, sejam públicos ou privados com certeza o número de leitores vai aumentar, sobretudo no momento em que vivemos em que há o louvor da ignorância e o contraponto disso é que as pessoas ficam mais curiosas pelo conhecimento.
    Parabéns aO Londrinense pela abordagem sóbria.

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