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Grafatório: 7 anos no prelo

Fazendo a si mesmo no Grafatório, um estúdio que virou vila cultural

Felipe Melhado

Especial para O LONDRINENSE

Quando o Grafatório começou,  eu estava cheio de energia, tinha 23 anos e a arrogância que eu achava necessária para criar algo novo. Àquela altura, em 2012, tive a grande sorte de encontrar parceiros para esse meu entusiasmo. Um grupo de amigos ligados ao design e às artes gráficas sonhava em fazer um ateliê coletivo, trabalhar juntos. Eles me chamaram para pensar nisso com eles, e eu caí de gaiato total – um cara do jornalismo, dos livros, do texto, perdido no meio de designers e artistas.

Mesmo assim topei, confiando que encontraria meu próprio caminho naquele território estrangeiro. Além do entusiasmo pela criação, eu também estava motivado pela amizade, pela possibilidade enfim de fazer algo junto das pessoas que eu curtia. Isso era, e ainda é, muito valioso para mim. A coisa tomou corpo quando inscrevemos um projeto no Promic para transformar a ideia em uma Vila Cultural – o Grafatório, que passou a existir em uma casa na Avenida Paul Harris, em novembro de 2012. O número é 1575.

Então o Grafatório não seria mais simplesmente um ateliê coletivo, mas quase que um espaço público. Tínhamos que pensar na contrapartida por conta da graninha que a prefeitura estava repassando pra gente. A turma não tinha muita ideia do que fazer a respeito disso, mas logo aprendeu. Desde então o Grafatório se tornou um ateliê de uso público, que todo mundo pode usar, e organizou inúmeras exposições gratuitas, oficinas, residências, eventos, mostras e se engajou em uma porrada de projetos na cidade. O núcleo de tudo é o trabalho com as artes gráficas: a gravura, a ilustração, a caligrafia, até mesmo a fotografia, e cada vez mais a tipografia e as artes do livro.

O público nem sempre compareceu – até hoje há uma tensão no ar, ficamos sempre na dúvida se as pessoas vão aparecer, e muitas vezes elas não aparecem mesmo. Mas aprendi o que todo produtor cultural devia: que a cultura não deve trabalhar em função das demandas, mas ao contrário, gerar as demandas. Como dizia o Leminski, no Brasil, o carro precisa andar na frente dos bois. Então nem todo mundo precisa entender o que o Grafatório está fazendo logo de primeira.

Mas há exceções, como a Feira DOBRA de Arte Impressa, um evento que fazemos todo ano e que é mesmo um sucesso de público. Gente de todo o Brasil se desloca voluntariamente pra Londrina para vender e trocar seus trabalhos na feira: zines, livros, quadrinhos, gravuras, ilustrações, publicações de artista, etc. E muita gente vai lá comprar, olhar, bisbilhotar. Na DOBRA, sentimos mesmo que o trabalho com as artes gráficas que fizemos por todos esses anos na cidade deu certo resultado. E claro, é gratificante.

E pessoalmente, acho que depois de alguns anos finalmente encontrei meu caminho no Grafatório. Desde o fim de 2017 começamos uma pequena editora independente ligada ao coletivo, a Grafatório Edições. Nosso primeiro livro foi um do Paulo Leminski, A Hora da Lâmina, que reúne os últimos textos que ele publicou em vida, aliás, na Folha de Londrina. Imprimimos tudo em tipografia, uma técnica antiga e artesanal de impressão, e encadernamos todos os 300 exemplares à mão, um a um. Foi um processo lento, penoso e, pra mim, exigente emocionalmente. Mas cresci muito, aprendi pra caramba. Quando a gente se engaja para realizar alguma coisa com tudo o que temos, a gente acaba se transformando também, é inevitável. Por isso, a atitude meio punk do faça você mesmo, para mim, poderia ser descrita também como faça A você mesmo. Uma preposição que faz toda a diferença para quem produz.  

Depois do livro do Leminski, vieram outros: do Paulo Menten, do Rogério Sganzerla, dos amigos Gustavo Galo e Júlia Rocha (recém-lançado) e do poeta jamaicano Claude McKay (no prelo). Editar cada um deles trouxe para mim uma intensidade de vida que com certeza me melhorou e me reinventou como sujeito. Aprendi, por exemplo, a lidar melhor com o tempo do mundo (que nem sempre coincide com o nosso), com as dores & as doideiras de se trabalhar em grupo, a prestar mais atenção e a valorizar o corpo (se o texto é o espírito, a forma do livro é um corpo), além de experimentar o universo particular que cada autor apresenta e com o qual quero sempre me contaminar.  

Hoje, o Grafatório está prestes a se reinventar. Daqui a um tempo nosso convênio com a prefeitura para a manutenção do espaço irá vencer, e pode ser que tudo mude. Mas eu também estou mudando: fiz 30 anos e sinto que algo novo está prestes a acontecer comigo, na verdade, já está acontecendo. E parece profético, mas o livro que estamos editando agora também anuncia uma mudança: o título é No Fim da Infância, e o autor é o Arrigo Barnabé, esse artista londrinense que admiramos tanto. Nesse livro de memórias, Arrigo fala muito sobre seu próprio processo de transformação, de como ele deixou de ser um garoto para se tornar um jovem artista extremamente inventivo. Os textos deixam clara a beleza que é se deixar transformar pelo aquilo que estamos criando, dia após dia.

E que venha o próximo. Como escreveu Oswald de Andrade, só há determinação onde não há mistério. E qual é o próximo? O próximo, meu amigo, é o seguinte.

Fotos: Acervo pessoal

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