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Terror

Por Cassiano Russo

Dias atrás fui visitar um circo abandonado em um terreno baldio, onde atrações desse gênero costumavam ocorrer. Não havia público, nem arquibancada. O picadeiro estava vazio. A lona rasgada quase voava com o vento. Tudo era silêncio sepulcral, com o picadeiro cheio de velas apagadas, consumidas pelo tempo. O chão era de terra batida e estava recoberto de palha seca. Andei por todos os cantos daquele lugar e nada encontrei além de esquecimento e abandono, como se há muito os artistas tivessem partido para algum outro circo. Não pensava em nada enquanto observava aquele espetáculo vazio, pois não havia pensamento para o que já não existia. Aquilo era uma espécie de fotografia do fim. Um presságio da minha vida ao longo dos meus anos.

Não havia um “porquê” para aquela solidão, nem mesmo um “como”. A grande arte havia se tornado um filme antigo que se perdera no depósito no qual ninguém entrava mais, como quinquilharia que não jogamos fora.

Saí. O céu estava nublado. Havia muita neblina naquele terreno onde fora instalado o circo. Ao longe, comecei a ouvir um som que me era familiar. Tratava-se de um trítono – diabolus in musica – intervalo musical proibido na Idade Média. (Meu destino era como aquele som: sombrio e proibido).

Não sabia quem executava o intervalo musical, mas alguma coisa, ou alguém, tentava me dizer algo. Acendi um cigarro e estanquei. As baforadas me sugavam a energia para continuar a fumar, como se cada tragada dissolvesse minha existência em fumaça. (Eu era sugado pelo meu vício de estar sempre a tragar meu espírito).

As impressões que gelavam minha espinha não podiam ser fruto de algum pesadelo. Eu compreendia todo aquele jogo que se apresentava como maldição verdadeira, e não como encenação de palhaços malditos. Não, não era o caso de uma recreação com as sombras, pois eu enxergava o peso da verdade.

Tudo era real, inclusive aquele trítono diabólico que ainda persiste em minha cabeça.

 E não importava a oração que eu fizesse, pois sempre uma presença se fazia sentir, como uma visita indesejada que não temos como mandar embora.

Sábado desgraçado em que fui àquele espaço abandonado, pois sei que não estava sozinho.

Havia alguém perto de mim…

Uma força oculta me obriga a registrar este relato. Cumpro minha tarefa com medo de que, caso eu não registre o que senti naquele dia, algo nefasto ocorra em minha vida.

Que Deus me proteja das trevas.

Foto: Pixabay

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