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Suco de melão com cheiro de saudades

Raquel Santana (*)

Morar fora de casa era tão maravilhoso, que todas as férias era difícil voltar para a nave mãe. Muitas vezes dávamos um jeito de nos reunimos na casa de alguém por pelo menos alguns dias. Foi assim que conhecemos as famílias uns dos outros, criando laços que se perpetuam até hoje. Imagina passar alguns dias numa cidade que não é a sua, só no dolce far niente.

De todos as casas que fui, não consigo esquecer a recepção dos Elorza, em Pirajuí. Seo Aido, dona Esterlina, dona Telésfora, Celso e Ilka, na época uma menina, sempre me receberam de braços abertos. Proprietários do Suco 13, vou confessar pra vocês que nunca passei tão bem na minha vida. Dona Telésfora, a avó, era a responsável pelos salgados. Foi por causa dela que me apaixonei por coxinhas de frango.

Muito magra, acho que seo Aido pensava: essa menina deve passar fome. Então, era cruzar a lanchonete que como passe de mágica, eram colocados à minha frente um salgado e um suco de melão. Eu nunca tinha tomado um melhor na vida. Melão caipira que algum produtor local fornecia e ele batia só com gelo, de tão doce que a fruta era. Sem agrotóxicos, um melão cor laranja que até então nunca tinha visto.

Quando provei pela primeira vez, fui aos céus e voltei. Ele sacou que gostei e toda vez que cruzava o local para entrar em casa, meu lanchinho me esperava no balcão. Assim era seo Aido, transbordava generosidade. Acredito que ninguém que tenha entrado naquela lanchonete com fome e sem dinheiro, tenha saído de mãos e estômago vazios. Lembro-me de sentar para comer e rir muito com ele.

Seo Aido era calmo e muito, muito engraçado. Eu, que fui criada sem pai, achava linda aquela família de mulheres fortes amparadas por aquele homem que mesmo que não demonstrasse, era o comandante.

Aos 20 anos, não pesava mais do que 50 quilos. Quando cheguei em Londrina, em 1982, comprava roupas na seção de adolescentes na Mesbla, ali no calçadão. Era uma batalha achar uma calça que servisse no quadril sem ficar pula brejo. Voltava das férias mais encorpada, embora o metabolismo da época me ser completamente favorável. Uma semana depois já era a Olívia Palito de novo.

Todas as vezes que voltamos de Pirajuí ou veio alguém de lá, nossa casa era uma festa gastronômica. Era bobó, carne assada, tudo do bom e do melhor que era mandado para todos nós. Um banquete que faziam questão que fosse dividido entre a turma. Talvez desconfiassem as perrengues que todos nós passávamos, sem tempo e dinheiro para fazer um rango melhor.

Se minhas férias daquele tempo tivessem que ter cheiro e sabor, certamente seriam o da cozinha dos Elorza. E seo Aido, até hoje, toda vez que sinto cheiro de melão, aquele cheiro inconfundível que só aquela qualidade de melão tem , eu me lembro do senhor e da atenção que dispensou para aquela menina, mais caipira do que o fruta.

(*) Jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina

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