Hoje se comemora o Dia da Avó. Como não sou uma ainda, vou falar sobre minha avó paterna, Benedita Santana, a vó Filhinha. Isso porque o sobrenome Santana tem todo um significado especial para a data. É que no dia 26 de julho se comemora o dia de Santa Ana, mãe de Maria e portanto, avó de Jesus. E meu sobrenome deriva da Santa.
Conta a história que, no século I a.C, Ana e seu marido, Joaquim, viviam em Nazaré e não tinham filhos, mas sempre rezavam pedindo que o Senhor lhes enviasse uma criança.
Apesar da idade avançada do casal, um anjo apareceu e comunicou que Ana estava grávida. Tiveram uma menina abençoada, a quem batizaram de Maria.
Devido à sua história, Santa Ana é considerada a padroeira das mulheres grávidas e dos que desejam ter filhos. Ana morreu quando Maria tinha apenas três anos. Maria cresceu conhecendo e amando a Deus e foi a escolhida para ser mãe de seu filho Jesus Cristo. É por isso que São Joaquim e Santa Ana são os padroeiros dos avôs e avós.
Já falei um pouco aqui sobre minhas avós, Sophia Tannuri, mas não contei algumas coisas sobre minha outra vó, a Filhinha. Cabocla vinda das tribos do Litoral Norte de São Paulo, dona Benedita teve dez filhos, entre eles meu pai, Itamar.
Fui conhecer meus avós paternos de fato, aos 15 anos. Por causa da separação dos meus pais, a família ficou dividida por mais de uma década. Fui até eles depois de muita insistência pela reaproximação das duas partes.
Meus pais se separaram quando eu tinha apenas dois anos e ele se separou de todos nós. Foi uma infância inteira composta por família de um lado só, os Tannuri. Dos Santana , só algumas histórias e um pedido de notícias que chegava de vez em quando. Cresci órfã de pai vivo.
Na adolescência, meus avós e tios insistiram na reaproximação e lá fui eu, tão curiosa para conhecê-los quanto tinha curiosidade para ver o mar. Seria a primeira vez com ambos e lembro como se fosse hoje. Viagem longa feita de ônibus em duas etapas. Primeiro até São Paulo e de lá para Ubatuba.
Meus avós moravam em uma das principais ruas da cidade e posso fechar os olhos para sentir o cheiro de mar da casa deles. Foram as melhores férias de minha adolescência. A família é grande e me perdi entre tantos primos, primas, tios e tias. Mas me perdi mesmo foi de amor por aquele casal de velhinhos que mesmo depois de 60 anos de casados, andavam de mãos dadas e trocavam juras de amor eterno.

Evangélicos fervorosos, os dois iam para o culto com a Bíblia debaixo do braço. Minha avó cobria a cabeça com um lenço de renda preto. No final da vida, já centenária, ganhou calos no joelho de tanto orar pelos seus. Citava nome por nome, um por um. E a família é grande.
São vários os testemunhos de sua fé e cura. Mas a história mais fantástica que ouvi de minha avó contradiz – ou não – a religião que acreditava. Minha vó era uma baita médium. Daquelas que fazem desdobramentos, têm visões e falam línguas.

Em nosso último encontro, ela me confirmou. Contou em detalhes a seguinte história: logo após o meu avô falecer, ele apareceu para ela. “Tenho certeza que não estava dormindo “, relatou. De acordo com ela, meu avô veio caminhando numa estrada iluminada, linda, coberta de flores e segurando a mão de um menino. “Ele veio e me disse assim: Filhinha, tive permissão para vir te mostrar que estou bem e pedir para parar de chorar porque está me atrapalhando”. Ela disse que tudo bem, mas não tinha entendido quem era aquela criança com ele. “Ela veio pedir o mesmo para a mãe”, respondeu, virando as costas e caminhando até desaparecer na estradinha. Minha avó nunca mais chorou por causa dele.
Outro relato dela diz respeito ao desdobramento. De acordo com ela, por várias vezes, de repente ela se via em outro lugar, com roupas estranhas, falando outras línguas, “e entendendo”. Em conversa com uma prima, ela me conta que nossos avós também tinham o “dom da língua. Ele rezava numa língua estranha e ela traduzia”, explica. Minha prima testemunhou várias manifestações.
Além de mulher de fé, vó Filhinha também era uma cozinheira de mão cheia. Até hoje não comi um refogado de chuchu com camarão igual ao dela. Assim como o mingau de fubá com bacon matinal, bem reforçado, para engordar a neta magrela.

Minúscula, tinha menos de um metro e meio, era uma gigante em tudo o que fazia. Não julgava, sempre tinha uma palavra de conforto para todos os seus “irmãos” de fé ou não. Teve uma vida longa – morreu com mais de cem anos. Digo com mais porque ela não sabia ao certo o ano em que nasceu. Ela achava que tinha 103 ao partir, completamente lúcida.
Morreu como morre uma vela. A chama foi-se apagando, até virar uma estrelinha e partir em direção àquela estrada que leva ao meu avô.
Benedita Santana, bendita como Santa Ana. Divina e inesquecível.
Raquel Santana

Já foi jornalista, acha que é fotógrafa, mas nesses tempos de Covid-19 ela só quer sombra e água fresca no aconchego do seu lar. Vendo seriados, óbvio!
Fotos: Acervo pessoal
